Uma mala de verão esquecida no inverno é algo bem diverso de uma mala de um verão esquecido reaberta no inverno. Bolsas listradas de lona privadas em locais públicos. Quando elas retornam ao fundo e ao chão na volta das férias, ao imperturbável reencaminhamento de um ano letivo, é porque muito cedo, senão automaticamente, se tornam tão imprestáveis fora de seu habitat natural, o qual consiste na linha da areia, na mesa dos quiosques, nas pousadas… Estas memórias arenosas da praia póstuma seriam de um autor-defunto?

Abro a mala reencontrada e quedam grãos de areia, encravados como joias insistentes no pano. Em uma terra distante, em um tempo indiferente, uma não existência de algo se passava e que agora se alinha como um náufrago inutilmente salvo. Encontro uma carteira transparente, à prova d’água, com documentos, piranhas e elásticos de cabelo, batons com SPF, cadernos com anotações (mas não estas que agora escrevo). Raquetes, bolas murchas, agora tão dentro desse saco e tão deslocadas desse mundo externo. Uma túnica, uns shorts, cheiro forte de protetor solar, papéis turísticos de torres, cidadelas perdidas, cemitérios arqueológicos, cabos, pontas, pontos geográficos de interesse permanente e não suficientemente distantes da civilização para os escolhermos para viajar e querer permanecer.

Notas de inverno sobre impressões de verão: leio na estante a lombada do livro aguardando a continuidade da leitura, iniciada mesmo em qual estação? Mas como é tudo voraz e passageiro, leitura e viagem, vida e término, sendo que no inverno estamos no verão, desfazendo tardiamente as malas, sendo que no verão estamos no inverno, lendo sobre viagens dos outros, ao sabor do aniquilamento do tempo e da devastação dos sentimentos. Indo mais além tanto no passado quanto no futuro não vamos enfim encontrar corrosivamente uma mala ou uma caixa meio vazia, cheia de areia? De uma vida que mais parece, assim vista por fora do aquário, do peixe afogado e dos grãos de areia dispersos, alheia.

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Elisa Andrade Buzzo é doutoranda no programa de Estudos Portugueses e Românicos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), mestre em Estudos Brasileiros também pela FLUL e graduada em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Publicou os livros de poemas Notas errantes (Patuá, 2017), Vário som (Patuá, 2012 – finalista do Prêmio Jabuti 2013 na categoria Poesia), Canción rectrátil (La Cartonera, 2010) e Se lá no sol (7Letras, 2005), dentre outros. Parte de suas crônicas veiculadas no site Digestivo Cultural (www.digestivocultural.com) foi reunida até o momento em duas antologias: O gosto da cidade em minha boca (Patuá, 2018) e Reforma na Paulista e um coração pisado (Oitava Rima, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.