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Punhado de ninharias [Raul Drewnick]

janeiro 10, 2021

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A beleza vai moldando de tal forma as mãos de quem lida com ela que é como se um jovem camponês dos mais broncos pudesse, anos depois, dedilhar uma rosa e extrair-lhe sons que nem o mais exímio dos ventos conseguiria. *** Sobre um lendário poeta parnasiano conta-se que uma tarde, ao chegar à sua […]

Pontas de estoque [Raul Drewnick]

dezembro 27, 2020

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Quando as conversas do velho poeta com as flores do jardim passaram a ocupar oito e às vezes mais horas dos seus dias, a família não se mostrou surpresa. Devia ser não mais que uma fase. Quando ele abruptamente parou de falar com elas, e já nem ia mais ao jardim para vê-las, os parentes […]

O falso pombo [Raul Drewnick]

dezembro 13, 2020

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Na tarde em que morreu o velho poeta, os parentes escolhiam o terno com que seria sepultado, quando de um deles escapou o que poderia ser um pombo, se houvesse justiça no mundo, mas era um maço de cigarros Minister, possivelmente da década de 1970. *** E houve aquela grávida meio sem noção que certa […]

Ontem aquele homem veio aqui [Raul Drewnick]

novembro 29, 2020

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Brincando? Me admira você dizer isso. Há quanto tempo você me conhece? Então. E com tanto tempo de amizade você acha que eu ia brincar com uma coisa assim? Se você duvida, pode perguntar para a Luciana. Ela está lá no quarto, a pobrezinha. Abalada. Não fala comigo desde ontem, quando ela chegou da casa […]

O céu é um lugar muito distante [Raul Drewnick]

novembro 15, 2020

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O menino tinha 5 anos e algumas convicções. Uma delas era não gostar da escolinha. Toda tarde, quando precisava ir, ele protestava, chorava, esperneava. Só depois de muita resistência acabava indo. E ia porque outra de suas convicções era a de que não havia um gato mais bonito que o da dona da escolinha. O […]

Baleia é a mãe [Raul Drewnick]

novembro 1, 2020

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Ele gosta muito do pai. Mas gosta muito mais da mãe. Está com 12 anos e, desde quando se lembra, sempre foi assim. Nas suas memórias mais antigas, é com a mãe que ele se vê. E sorri quando mergulha nessas recordações. Ah, que saudade daquelas primeiras tardes passadas no jardim de infância, daqueles sanduíches […]

A barriguinha [Raul Drewnick]

outubro 18, 2020

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De repente, no sétimo ano de um casamento feliz, Luísa começou a ser cutucada pelo espinho da inquietação. Se alguém lhe perguntasse, ela não saberia dizer o que havia mudado no comportamento de Cláudio, mas tinha certeza de que o marido não era mais o mesmo. Ele parecia tão atencioso como nos primeiros dias do […]

Se esta rua fosse minha [Raul Drewnick]

outubro 4, 2020

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Há em São Paulo bairros que nascem anônimos, crescem obscuros e vão vivendo sua vida sem merecer a atenção da imprensa, a não ser em esporádicas ocorrências policiais, e sem despertar a inspiração de nenhum cronista. Não era o caso do lugar no qual João S. Glória vivia desde o seu nascimento. Famoso, tradicional e […]

Mulheres, e as frases que elas inspiram [Raul Drewnick]

setembro 20, 2020

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O sinal para pedestres abriu. O velho pôs o pé direito lentamente na rua, como se testasse a temperatura da água numa banheira. Depois, tão devagar quanto o direito, moveu o pé esquerdo, como se estivesse descalço e ali houvesse cacos de vidro. Foi aí que a moça de uniforme branco resolveu ajudá-lo. Manicure, ela […]

Um belo e doce nome de menina [Raul Drewnick]

setembro 6, 2020

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Os dois homens estavam no balcão da padaria, tomando cerveja. Um deles não agüentava mais a ansiedade de falar de futebol, porque seu time, na noite anterior, tinha disputado uma partida decisiva. “Você viu o…?”. Mas o outro não estava ouvindo o que ele dizia. Sua preocupação e seu assunto eram outros: “Minha mulher está […]