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Passatempo [Mariana Ianelli]

julho 14, 2018

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Uns gostam de palavras-cruzadas, quebra-cabeça, xadrez. Eu gosto de ver os anúncios das casas no bairro que estão à venda. Procuro as razoavelmente modestas, com apenas um luxo imprescindível: um jardim. Vou entrando nas casas, uma a uma, de madrugada, sem barulho, como um crime. Piso em chão de taco de madeira, subo escadas que […]

Dois anos [Mariana Ianelli]

junho 30, 2018

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Vão dizer que o tempo voa, é o que dizem quase sempre, aproveita que passa rápido, tua filha não é mais um bebê, olha só, é uma menina. Vou desmentir? Dizer o que penso? Porque, para mim, nosso tempo não passa. De verdade que não passa. A primeira queda, o primeiro anel de cabelo guardado […]

Coisa de um instante [Mariana Ianelli]

junho 16, 2018

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Você pode tirar os sapatos se quiser. Pode baixar a guarda, perder seu discurso. Não se acanhe. Aproveite que as crianças ao redor autorizam um pouco de inocência e vá colher pitangas. Isso não é uma ofensa, eu juro. Vá abrir mamão para os pássaros, juntar as folhas secas, as sementes, os gravetos espalhados pelo […]

Uma rosa entre dois assuntos [Mariana Ianelli]

junho 2, 2018

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Estava te olhando outro dia. Pensando. É um mistério, um rosto. Pode embrutecer com o tempo, pode suavizar-se. Teu rosto, por exemplo, é tão estranho. É como se tivesse sido aquarelado. De onde vem essa delicadeza como a da relva fina que brota de um terreno arrasado? Um rosto de penugem loira, renascido de quê? […]

Por que não? [Mariana Ianelli]

maio 19, 2018

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Tem gente que vê sinais por toda parte, chamados, milagres, fogachos do destino. Há essa espécie de atenção exacerbada que às vezes alucina e vê mensagens em código no vento, num enxame de borboletas, numa combinação de números de uma placa, na cruz de luz que o sol faz numa esquina. Há quem leia as […]

Restituição [Mariana Ianelli]

maio 5, 2018

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Às vezes é só com um estranho que ficamos à vontade para falar de certas coisas muito íntimas. Coisas que se disséssemos para os nossos, por serem coisas inflamáveis, talvez ardessem antes de serem compreendidas. O estranho, ao contrário, pode compreender sem compromisso. Eu mesma uma estranha, já ouvi algumas dessas coisas muito íntimas, e […]

Ainda que tarde [Mariana Ianelli]

abril 21, 2018

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Prenderam o cabeça da revolução. Por isso o homem se dobrou? Não se dobrou. Podia até se entregar, mas dobrar não se dobrava, daí o escândalo. Inquiriram o homem uma vez, duas vezes, cinco, seis. Ele arrastou alguém para dividir com ele a carga? Jogou o jogo da delação premiada? Ninguém, nada. Consta dos autos […]