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Um velho solitário amigo [Mariana Ianelli]

janeiro 9, 2021

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Hoje eu quero ler um daqueles escritores sobre os quais ninguém mais fala. Um daqueles esquecidos como as casas sem visita sobre as quais nascem outras casas feitas de plantas e bichos. Quero visitar esse esquecido sem vaidade de senhor de garimpo, com discrição mútua, assim, sem nem citar seu nome. Visitá-lo sem deixar maiores […]

Mariana Ianelli e os olhos infantis

dezembro 30, 2020

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(Imagem: ardotempo/divulgação) Uma menina tem as palmas abertas para o dia, cintilando como dois girassóis. São mãos estreantes, experimentais, exploradoras, estonteadas com o começo de tudo. As mesmas mãos com que, ainda bebê, agarrava os cabelos longos de Mariana Ianelli como se fossem cordames de um navio em tempestade. Agora, a menina pega Mariana pela […]

Para flauta e clarinete [Mariana Ianelli]

dezembro 26, 2020

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Mesmo a festa sendo tímida neste final de ano, será improvável que caia no andamento grave ou gravíssimo. Isso porque uma menina vive nesta casa, o que geralmente nos leva do allegro ma non troppo ao prestíssimo. Mas tenho amigos que estão doentes e têm passado esses tempos numa guerra brava, o que deixa uma […]

Crônica da hora exitosa [Mariana Ianelli]

dezembro 12, 2020

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Uma hora sem molestar o mundo, você consegue? Ou o que parece calma é sempre uma superfície ondulando de leve como uma água cheia de enguias dentro? Por quanto tempo alguém consegue se deixar levar de momento em momento? Tivesse eu um braço de rio à minha frente, uma faixa de areia franjada de conchas […]

Prazer de miragem [Mariana Ianelli]

novembro 28, 2020

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O mar não está tão longe. É esperar o sol atingir o ponto em que atravessa a janela do banheiro e então entrar no banho. Fechar os olhos. Deixar que o sol esquente as pálpebras e a cabeça quieta debaixo do chuveiro. Um caiçara provavelmente sorriria de pena de alguém se contentar com esse mar […]

Nosso trato [Mariana Ianelli]

novembro 14, 2020

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Minha filha reluta em dormir, acha sempre o que fazer para ir invadindo cada vez mais a madrugada. Sua vontade é ver o sol nascer, a biblioteca da sala toda avermelhada. Foi assim que fizemos um trato: mamãe se incumbe de atravessar a madrugada e colher notícias de tudo o que acontece enquanto ela sonha […]

Meus queridos escorpianos [Mariana Ianelli]

outubro 31, 2020

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Hoje é aniversário de Drummond e de minha mãe. Animais perigosos, esses escorpianos, isso é sabido. Ainda no caso de serem mães, como que duplamente aracnídeos. Impõem respeito. Seu amor é mortal. Mas, ainda que morram, nunca estarão completamente mortos. Que aspectos infernais, que abismos, que terrores são esses que dão má fama aos do […]

A casa de número 41 [Mariana Ianelli]

outubro 17, 2020

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Uma amiga me contou que, outro dia, acordou pensando no tempo. A maneira como me disse cheirava a poema. Disse que “cada idade é uma porta que você só pode abrir uma vez”. Se assim for, posso abrir agora minha porta de número 41, e, ali, o quê? Quatro gatas de olhos verdes e amarelos […]

Um porre de palavras inflamáveis [Mariana Ianelli]

outubro 3, 2020

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Você me desculpe o desconforto da pergunta, mas como tem passado? Como tem passado depois de encarar os olhos baços da onça pintada? Evitou ver as fotos das sobras horríveis da devoração das queimadas, ou por acaso você também chegou a pôr os olhos nas antas carbonizadas, nos cervos dobrados de dor, nos jacarés consumidos […]

O grito desaparecido [Mariana Ianelli]

setembro 19, 2020

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Faz semanas que o louco não passa na avenida. Não à hora em que passava, no meio da madrugada, se valendo do silêncio do bairro para redobrar o alcance do seu grito. Não morreu de frio, isso é certo, porque, nas noites mais severas de inverno, ele ainda passava, sensivelmente mais louco, mais desesperado, nos […]