Conversei com uma amiga sobre minha nova tatuagem. Ela me contou de sua vontade de fazer uma, mas que hesitava na escolha do desenho. O motivo era que todas as suas opções poderiam ser interpretadas como símbolos de morte ou criminalidade. Nada ligado a armas ou facções, eram apenas cartas de tarô. Achei este temor uma bobagem, porém compreensivo considerando quem é. (A pessoa, apesar de poeta talentosa, prefere sua taça de vinho diária meio vazia). Contra-argumentei com o seguinte: “Se é assim, eu devo ser um bandidão, porque tenho artes de crocodilo, cobras, caveiras, além de uma Ceifadora, só símbolo de morte no corpo.” Arrematei com a abordagem de que cada tatuagem tem que ser vista de acordo com a interpretação daquela que a ostenta. “Ou poderia ter um fetiche por zoologia”, acrescentei. No entanto, percebi um elo entre as tatuagens que coleciono: são todos bichos peçonhentos.

Embora critique de forma carinhosa minha amiga, também sou culpado de criar sarna para me coçar. Assim… Peçonha? Seria eu venenoso, um indivíduo tóxico? Afinal, por que esta apreciação por predadores ou criaturas viscosas? Seriam, numa maneira inconsciente, símbolos de bandidagem? À medida que o mistério me agulhava as ideias, despertei. Não sou alguém de copos meio vazios: ou estão vazios ou cheios. Tampouco bebo vinho.

Por outro lado, um pouco de acidez traz alegria à vida, esse fenômeno tão voraz. Quem duvida sugiro a leitura de “Deus é naja”, crônica do Caio Fernando Abreu. Certa comédia maldosa (pero no mucho) evita a fadiga. O segredo da cobra não está na toxina, mas na dosagem. Nossa peçonha humana é uma faca de dois gumes. De novo, uma ilusão de ótica: você encara a lâmina ou o cabo em sua direção? Vejo ambos, o que me fornece uma medida de poder saudável. Não sou um lutador, somente um debochado. Domino a ciência do duelo verbal, inclusive a hora da retirada. São inúmeras as encrencas de que me livrei com jogos de palavras ou uma piada certeira. Talvez Deus seja naja, porque a peçonha é divina.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.