A menor importância [Cássio Zanatta]

Posted on 10/10/2016

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Cássio Zanatta*

Meu filho, essa apresentação não tem a menor importância. Um atraso não tem a menor importância. Essa saudade que às vezes dói, outras não dói, também não tem. Se você tem quatro ou vinte e oito troféus na estante, isso é de uma imensa desimportância.

Uma aranha não tem a menor importância, a não ser quando resolve sair do buraco da parede para passear de madrugada. Um copo de água tem importância maior na ressaca – mesmo assim, gelada. O resmungo é de uma eterna desimportância. Confundir-se todo cantando o Hino Nacional, é ou não é?

Manga tem, e muita. Menos na prateleira do supermercado, mais debaixo da árvore, na sombra, quando a gente disputa a polpa com os marimbondos.

Pense no que afligia tanto você há cinco anos, aquele problema terrível, tão importante que lhe tirava o sono e fazia seu estômago falar em letra de forma. Se não foi problema de saúde, provavelmente você se esqueceu dele. Puf. Perdeu a importância.

Sorrir é da maior. Flertar é de importância menor – mas como é bom. Amar, mesmo que deixe alguns roxos por dentro da pele. Esquecer é muito.

Seu tênis que range a cada passo não chama a atenção de ninguém, fique tranquilo. Saber o nome do Ministro da Integração Nacional é oficialmente sem importância. Aliás, o poder costuma ser vulgarmente desimportante. Importante seria que a gente se visse mais. Mas você daria alguma a isso?

Interrompemos esta crônica para contar que um urubu acaba de dar um rasante bem em frente à janela. O urubu e o imenso contraste entre o bicho feio e o voo lindo. Terá isso alguma importância?

Cumprimentar o porteiro é da maior. Ter uma padaria que preste nas redondezas, então. Pitanga é importante. Manchar a camiseta com ela é da maior. O único defeito da pitangueira é ter galho fraquinho: a gente não pode subir com confiança. De tanto nos supormos importantes, ficamos pesados demais.

Ter paz, ainda que uma afliçãozinha tenha seu sal. O som da bola de gude batendo na outra. Salvar a abelha de se afogar no copo onde caiu– é possível que, assim que as asas secarem, ela vá ferroar seu braço, mas é só uma pequena ingratidão sem importância. Há mais graves.

Dinheiro só é importante quando deixa de ser o mais. Importante não contar dinheiro nem carneirinho no travesseiro, mas lembrar o nome da pessoa em quem você esbarrou na rua, de que Jairzinho fez gol em todos os jogos da Copa de 70, de que esse fim de semana é aniversário da tia Cecília e de comprar requeijão para ornar com a bananada.

O ponto de exclamação raramente merece a exclamação.

Importância tem o ninho, não o radar. A nuvem, mais que a persiana. O realejo, não a campainha. Mais a poça que o ralo. Muito mais a risada que o calendário. O quanto dura uma espuma.

Não tem importância se foram vinte ou duzentas, desde que tenha havido uma: A.

Interrompemos outra vez porque o celular toca. É a moça do call center da operadora, ligando para me oferecer um plano incrível que é um troço, vai me dar um mundo de benefícios e ser mais vantajoso por isso e aquilo.

 Mas isso e aquilo não têm a menor importância. A menor.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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