A primeira vez que me apaixonei por você [Guilherme Tauil]

Posted on 11/10/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

A primeira vez que me apaixonei por você, saímos esfomeados do cinema, reclamamos que não tinha nada de bom por perto, topamos entrar num lugar qualquer e você pediu omelete completo com bastante queijo.

A primeira vez que me apaixonei por você, perguntei para que lado ficava a praça Roosevelt, você não entendeu a pergunta, repeti, me disse que não sabia porque não era daqui, eu disse que também não era, você riu por educação e eu de nervoso, seguiu seu caminho para um lado e eu toquei para o outro.

A primeira vez que me apaixonei por você, fiquei encantado com seu método de deixar o casaco um pouco aberto no frio para sentir no peito um geladinho constante.

A primeira vez que me apaixonei por você, tínhamos sido expulsos da sua casa porque todos preferíamos Erasmo a Roberto, menos você, que muito bêbada berrava de cima da mesa que não precisava de homem nem para gozar, quem dirá para discutir música popular brasileira.

A primeira vez que me apaixonei por você, estava distraído quando você perguntou se eu tinha fogo e respondi que sim, mas só depois de apalpar todos os bolsos me toquei de que nem fumava, aí precisei fingir que tinha escutado outra coisa e ficamos rindo, não sei se da situação ou da minha cara vermelha.

A primeira vez que me apaixonei por você, eu sufocava com o gás de pimenta da polícia quando te vi parada com uma garrafinha, perguntei se podia me dar um gole e você falou que água não tinha, era vinagre, e encharcou minha camiseta.

A primeira vez que me apaixonei por você, te vi chegar num churrasco com um fardinho de cerveja ruim, entoando o refrão de um pagode dos anos noventa desde lá de longe.

A primeira vez que me apaixonei por você, tínhamos acabado de desenhar meu mapa astral de brincadeira, você disse que não acreditava muito nesse papo, mas percebi que, em silêncio, começou a calcular possibilidades.

A primeira vez que me apaixonei por você, elogiei sua fantasia de bruxinha, você disse que eu estava ótimo de médico cubano, topamos dividir uma cerveja, mas o anfitrião da festa caiu da escada e foi direto para o hospital, achamos que não tinha mais clima, que seria grosseira qualquer forma de felicidade, então trocamos números e nunca mais nos vimos.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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