Bela, magnífica, majestosa [Raul Drewnick]

Posted on 09/10/2016

8



Raul Drewnick*

Amo as palavras que te nomeiam: bela, magnífica, majestosa. Tenho com elas a mesma relação que une o jardineiro às suas flores. Há sempre alguma que lhe merece mais atenção.  Eu reservo a minha para aquelas três: bela, magnífica, majestosa. E digo-as como se estivesses aqui e, ouvindo-as, as aceitasses.

                                                                ***

Eu sou aquele que no triplo mortal morre no salto inicial.

                                                               ***

Um poema concreto é aquele que se pode apalpar se o dono não estiver por perto.

                                                               ***

Que seja amor a última palavra que tenhas nos lábios, ainda que não a consigas pronunciar.

                                                               ***

Talvez venhamos a descobrir um dia o que os leitores já sabem: não somos escritores.

                                                               ***

Se o amor não te dispensou, é porque ainda tem planos para ti. Prepara tuas costas.

***

Sempre que pensa nas mulheres dos contos de Dalton Trevisan, o que imediatamente o excita é imaginar os tufos que elas têm nas axilas, dos quais se exala um vicioso cheiro de suor e desodorante caseiro.

                                                              ***

A literatura, minha desculpa mais antiga, vem se tornando dia a dia menos convincente. Sinto-me como um farsante arrependido, que espera ser desmascarado para pedir perdão.

                                                              ***

Se não fosse o amor, como aprimoraríamos nossa falsidade?

***

Estarmos mortos é uma certeza que só os outros podem ter.

***

O próximo é tão mais amado quanto mais estiver de nós distanciado.

***

Há leitores que não se espantam com as proezas dos heróis dos romances de cavalaria mas  consideram absurdos os vagabundos de Beckett.

                                                             ***

O vento brinca de teatrinho com as roupas do varal. Finge que é um policial e sacode os lençóis, interrogando: quem de vocês é o chefe, quem?

***

A terra sempre se ri quando armamos aquela cara séria e perguntamos: para onde vamos?

***

Se eu quiser falar com os da minha geração, só se for visitá-los no cemitério da Consolação.

***

Por mais que tenhas lido, por mais que tenhas aprendido, por mais que tenhas vivido, será nenhum teu saber se não tiveres compreendido que o único sentido da vida é morrer.

                                                             ***

Da literatura, origem de todos os meus males, espero que, se ela não os curar, os faça ter algum sentido.

__________

Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas