Cássio Zanatta e a crônica desimportante

Posted on 01/12/2016

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Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa. Esta sucinta descrição acompanha as crônicas que, desde março, Cássio publica quinzenalmente, às segunda-feiras, na RUBEM. Não é muito tempo, mas foi suficiente para que conquistasse a admiração dos leitores, graças ao estilo simples e sensível das suas crônicas.

Em outubro, Cássio reuniu essas crônicas no seu primeiro livro (não é bem o primeiro, mas é). “A menor importância” foi publicada pela Editora Realejo como parte da Coleção Passarinho, que reúne publicações com textos breves. É também o nome de uma crônica, publicada pela RUBEM, reveladora do estilo do autor.  RUBEM decidiu conversar com Cássio Zanatta para saber um pouco mais sobre como ele enxerga o gênero da crônica.

Como começou a sua relação com a crônica? Quem eram os cronistas que você lia? Parece-me que você valoriza bastante alguns aspectos simples da vida, e isso é a própria essência da crônica, não é? O que você considera como “uma boa crônica”?

Cássio Zanatta
:  Uma coisa de que me lembro, menino, era que sempre havia uma revista Manchete em casa. E que a gente quase nunca jogava fora, aquelas páginas, aquelas fotos, o cheiro da revista, eram coisa preciosa demais.

Manchete sempre trazia uma crônica (nem sabia que tinha esse nome) do Paulo Mendes Campos ou do Rubem Braga. Eu lia e achava ao mesmo tempo bonito e esquisito. Achava bonito o que eles diziam, como diziam, mas estranhava que não tinha nada a ver com as notícias ou os assuntos que as páginas e a capa traziam. Aquele espaço não tinha nada a ver com o resto, e isso me fascinava, essa liberdade, esse espaço “solto”, independente.

Mais tarde, comecei a me enfiar no assunto. A biblioteca do colégio tinha uma seção generosa de crônica. Eu tinha dois cronistas preferidos: o Fernando Sabino, que tinha uma prosa mais corrida, de mais causos, mais para o humor. E o Rubem Braga, um texto mais reflexivo, mais difícil, mas que me atraía muito. Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Luis Fernando Veríssimo foram outra fascinação que veio a seguir. Daí conheci Bandeira, Drummond (descobri os cronistas bem depois dos poetas) e me encantei com Ivan Lessa e suas crônicas de Londres.

Para mim, uma crônica é boa quando não se dá muita importância. Quanto fala de um assunto que, talvez, nem merecesse ser abordado. Mas que traz um sorrisinho ao leitor, deixe o seu dia menos difícil, menos duro (sempre fui assim, meio pretensioso, metido a herói). E, principalmente, consiga que, na sua efemeridade, dure mais tempo nos interiores do cidadão.

Fale um pouco sobre o seu livro “A menor importância”. Quantas são e qual período de abrangência das crônicas? 

“A menor importância” tem apenas 54 crônicas. É um livro fino, acho que faço um favor ao leitor não falando demais. Tenho fôlego curto. São crônicas escritas entre 2003 e 2015 e publicadas primeiro no The São Paulo Times e, depois, também na Rubem.

Antes deste livro, você já havia escrito um de crônicas chamado “Coisas de Mineiro”, não é? O “A menor importância” então não é o seu primeiro livro. 

Não é meu primeiro livro. Mas é. Deixa eu explicar: há de fato esse outro, “Coisas do Mineiro”, publicado em 1984, escrito quando eu tinha 20, 22 anos. É muito imaturo, meio pobrinho. Não o renego, mas é uma obra menor, crônicas de um autor iniciante e inexperiente. Não que esse agora seja muito melh… bom, deixa pra lá.

Você enxerga alguma relação entre a sua atividade de cronista e a de publicitário? 

Minha relação entre escritor de crônicas e redator de publicidade é curiosa. Posso dizer que sou bem sucedido na publicidade, realizei trabalhos importantes, para clientes importantes, e fiz grandes amigos. Mas o texto publicitário tem um objetivo claro, que é o de construir marcas e vender. Objetiva o consumo e, por isso, está condenado a não durar, a uma morte instantânea. Por natureza, não é reflexivo, meditativo, não pode ser vagaroso, saboroso ou lenga lenga – qualidades que, na minha opinião, fazem uma boa crônica.

Acho mesmo que a publicidade e a crônica não poderiam ser mais diferentes. Uma é exaltação, objetividade, quer chamar atenção. A outra é reflexiva, despretensiosa, meio bocó, até. Aliás, acho essa a principal razão de eu ter feito um certo nome na profissão: eu era meio um outsider, dava um certo jeito diferentão nas criações, mais leve, mais humano, desimportante, sei lá.

Como é a sua relação com o leitor das suas crônicas? Geralmente a crônica se destaca por ter uma certa proximidade com o leitor, não é? Embora às vezes o retorno deles seja ressaltando algum aspecto que o próprio cronista não tenha dado muita atenção… 

Ah, o retorno é bem mais individual e recompensador. As pessoas comentam com outra emoção. É incrível ver que algo que você escreveu toca em algum lugar especial da pessoa, muito íntimo, valioso. Sem que a gente, quando escreveu, tivesse mesmo essa intenção. Voltemos à publicidade. Ela pode ser até elogiada, ser comentada no almoço de domingo, mas o sujeito a esquece na primeira esquina, é a rainha da efemeridade. E é uma grande honra quando alguém elogia e se identifica com algo que você publica numa crônica, às vezes de anos atrás. E que, às vezes, o cidadão resolve levar pela vida.

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A Menor Importância – Cássio Zanatta
148 páginas, R$ 42 

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