Para consumo imediato [Raul Drewnick]

Posted on 29/12/2019

4



Alguém dizer-se poeta já teve melhor resultado em outras épocas – especialmente naquelas em que havia poesia.

***

Aos oitenta, se você se lembrar ainda dos ideais de sua juventude, talvez seja mais um desses casos  de nostalgia ou falta de maturidade.

***

A molecona, já versada na brincadeira, fica nua e pergunta ao inocente guri: você trouxe o bisturi?

***

No escuro as duas amigas se dão e, para vencer o medo, uma diz à outra meu Pedro e a outra responde meu João.

***

Numa frase, bem no meio dela, ratimbum!, explode uma onomatopeia.

***

Um quero-quero são duas vontades ligadas por um hífen e movidas por duas asas.

***

 Preciso parar de ter pena de mim. Faz trinta anos que comecei com isso, e já nem lembro por quê.

***

Imagino Ava Gardner com um copo na mão, mexendo languidamente as pedrinhas de gelo com o mindinho da outra, e penso que, se ela não fez isso em nenhum dos seus filmes, onde os diretores estavam com a cabeça?

***

Para muitos, basta um apenas. Eu, pobre de mim, precisarei de quantos mecenas?

***

Seria ótimo se o estilo, assim como a casa própria, pudesse ser adquirido com uma pequena entrada e oitenta prestações mensais.

***

Não sou dado a filosofias. O que tenho de mais profundo é esta tristeza.

***

Fantasmas ingleses – não todos, mas a maioria – têm três séculos de garantia.

***

Era um fantasma comunicativo. Ficou na casa um mês e, quando foi embora, até o papagaio falava inglês.

***

Os personagens de Shakespeare, com exceção dos cavalos, seriam hoje todos tratados com medicamentos de tarja preta.

***

Nas novelas policiais, às vezes há mais mortos do que personagens.

***

Um chato, quando dá de ser poeta, costuma se especializar em odes e epopeias.

***

Chato é aquele tipo que nos pede o lenço emprestado para uma assoadinha

***

E há aquele chato que nunca vai a lugar algum sem o irmão gêmeo.

_________

Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

Marcado:
Posted in: Crônicas