Cheiro de Frangipani [Mariana Ianelli]

Posted on 28/12/2019

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Sem despedidas, discretamente, você se retira. Passam os dias e essa ausência vai ficando menos e menos discreta, vão chegando mensagens, algumas ainda gentis, curiosas, depois preocupadas, outras urgentes, mais que urgentes, imperativas, até eclodirem rompimentos, uns atrás de outros, às vezes tão ardentes da parte dos ofendidos que é como se há muito tempo estivessem engatilhados, só aguardando um bom motivo, você até gostaria de esclarecer o mal-entendido, mas também isso ficou para trás e voltar é impossível, você agora já adentra um deserto difícil, com poucos recursos e altas tentações de delírio, você já se sente desaparecendo quando percebe palavras esquisitas, que continuam a chegar, mesmo muito depois de passado o enxame aflito, palavras que estavam lá, falando com você, desde sempre, embora não tão visíveis como agora no deserto, palavras compreensivas, que não souberam resolver em morte a fantasmagoria incômoda do amigo, que não colaboraram com desprezo ou outras formas de descarte, como se nada tivesse necessariamente se rompido só por haver silêncio, como se certas ausências também nos quisessem falar, e é assim que você se descobre elaborando uma resposta como que involuntariamente, como uma árvore solitária ainda elabora e exala seu aroma a quilômetros no vento, por uma também muito discreta inteligência sensível da natureza, você responde que está vivo e não sabe até onde irá esta mensagem, mas sabe, como uma árvore sabe, que este sinal, este aceno, este perfume, por onde quer que passe, leve o tempo que levar, chegará ao seu destino.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre (ed. ardotempo, 2013). Depois, escreveu Entre imagens para guardar (ed. ardotempo, 2017), também de crônicas. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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