Que venham os anos 20 [Cícero Belmar]

Posted on 30/12/2019

0



Mais algumas horas e viveremos o fim de uma década. Digo, mas vou logo admitindo divergências. Há quem entenda que o final será em dezembro do ano que entra. Acho assim: o período de tempo iniciado em primeiro de janeiro de 2010 vai até a meia-noite de amanhã.

Seja lá o que for, a sensação é de que sobrevivemos a uma coisa antiga (2019), em todos os setores da vida brasileira. E precisamos nos manter mobilizados para impedir de continuarmos andando para trás como caranguejos.

Despedir-se de uma década é uma simples constatação para quem já assistiu à virada de um século. Ok, ok, abafa o caso: para quem já passou pelos últimos instantes de um milênio. Eu sou desses. Vivi os três finais, fato raríssimo, numa mesma noite. Tenho status de personagem histórica. Eu estava lá, naquele momento que só se repete a cada mil anos.

Não vi nada demais naquela noite de 31 de dezembro de 1999, última do milênio, do século e da década. Juro que esperava algo emocionante. Fiquei frustrado porque havia a expectativa de um troço apoteótico. Tipo assistir ao fim do mundo de camarote. No entanto, tudo igual, até nos fogos de artifício.

Quem fez pirotecnia na época, com o marketing do fim dos tempos, foram o comércio, a indústria e os meios de comunicação. Ah, sim, e a galera esotérica. Teve até a mística do Apocalipse Maia que, não é difícil imaginar, deu em nada. O ano 2000 entrou morno e entediante.

Daquela vivência, no meu caso, sobrou apenas essa pessoa mais velha que agora conta a história. O que restará de 2019 para 2020? O escritor Nelson Rodrigues dizia que, com o tempo, ficamos apenas mais velhos e mais cínicos. Estava com a razão. Os anos passam e nós ficamos mais disfarçados, rimos de nós mesmos, menos orgulhosos, condescendentes.

Delicada e lírica, a poeta Cecília Meireles trata do mesmo assunto, de outra forma. Ela nos indaga com sua obra íntima e reveladora (Retrato): “Eu não tinha rosto de hoje. Assim calmo, assim triste, assim magro. Nem estes olhos vazios, nem o lábio amargo”. No poema, é resignada, maleável, consciente do que lhe restou.

Mais uma vez, Cecília: “Eu não tinha essas mãos de hoje, tão paradas e frias e mortas. Eu não tinha esse coração, que nem se mostra. Em que espelho ficou perdida a minha face?”.

2019 foi bem complicado, mas herdamos o aprendizado. Se, em tempos bicudos não traímos os nossos princípios, se continuamos fiéis aos nossos sonhos, mesmo com tanta adversidade, já terá valido a pena este ano.

Os minutos, as horas e os dias serão lembrados pela nossa resistência na busca da felicidade possível. O lado bom dos tempos ruins é que eles nos convocam para nos tornarmos protagonistas de nossa própria história.

Em 2020, que ninguém brinque com a nossa coragem e o nosso desejo de fazermos dele um ano melhor.

__________

Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. Email: belmar2001@gmail.com; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

Posted in: Crônicas