Tragicômicos [Rubem Penz]

Posted on 27/05/2016

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Rubem Penz*

Esta semana, aos 85 anos, faleceu Burt Kwouk. Este nome pode dizer pouco para você. Porém, quem gosta de cinema e, ainda mais, de comédias, conhece Cato Fong. Cato era o criado do Inspetor Clouseau na série de filmes A Pantera Cor-de-Rosa, verdadeira obra prima estrelada por Peter Sellers. E a dupla, como em um filme dentro de outro filme, protagonizava pequenas histórias paralelas as quais tinham um só enredo: a ordem expressa de necessariamente, em qualquer circunstância e à revelia de contraordens, Cato atacar o Inspetor quando ele voltasse para casa. Segundo Clouseau, um modo eficaz de manter sua sagacidade afiada.

Como era tal sequência? Bom, Clouseu, de volta ao lar, logo percebia Cato em estado oculto. Então, o Inspetor pedia por ele, suplicava, avisava bem alto que não tinha tempo para o exercício, que desta vez era para o criado aparecer, que havia algo mais importante para ser feito, etc. Nem por isso deixava de se armar ou de investigar possíveis esconderijos tendo nós, espectadores, como cúmplices de sua angústia. Até quando, do nada e para alegria de todos, Cato voava para cima de seu amo num ataque letal. Dali para adiante, ambos destruíam a casa lutando um contra o outro, restando Clouseau vencedor – como sempre digo, nada melhor do que ter o roteirista do nosso lado.

Enquanto lia a nota de obituário, logo depois de dar uma repassada na timeline da rede social, dei-me conta de que agora, no Brasil, estamos presos num igual fragmento de “história dentro da história”. Tipo assim: há milhões de pessoas desempregadas, desfalques trazidos à tona na maior operação judicial dos últimos tempos (dizem que poderá ser superada por outras), autoridades de diversos os partidos e em todas as esferas envolvidas, as contas da Nação deficitárias (apesar de só crescer o peso dos tributos), precários serviços públicos essenciais, desesperança generalizada e… “Catos” e “Clouseaus” combatendo um contra o outro, destruindo a casa e se ferindo porque… Por que razão, mesmo?  Ah, porque é preciso estar atento – cada golpe sofrido pede um contragolpe de igual intensidade.

Alerta de spoiler: por força de enredo, Cato jamais atenderá aos apelos de trégua, mesmo quando a lógica manda focar na trama de fundo – o que vale é a luta. Triste também será o papel do Inspetor, incapaz de se dar por vencido: é protagonista. Porém, inacreditavelmente, esse patético pastelão não deixa de ter graça para quem vê de fora. Uma tragicomédia burlesca com direito a dedo no olho e mordida na bunda, ora convictos, ora dissimulando. Quem de nós será Burt? E Sellers? Ou, a pergunta de milhões na Suíça: quem escreve este roteiro?

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Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro o Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas