As peças que a vida prega [Luís Giffoni]

Posted on 12/12/2015

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Luís Giffoni*

Para tudo, precisamos de modelos hoje em dia – também podemos chamá-los de sistemas, critérios, planos, classificações, conjuntos, teorias, padrões – em busca de maior sentido à vida ou para extrapolar a rotina. Criamos modelos para este e todos os mundos, incluídos o paraíso, o inferno, as estrelas, os universos paralelos. Para o real e o imaginário. Nem a literatura escapa. Temos modelos até para a loucura. Mais de quinhentos, segundo os psiquiatras.

Modelos inserem o particular no global. É cômodo. Em vez de nos ocuparmos de muitos casos, nós os condensamos, unindo-os através de características comuns. Assim, tratando-nos por primatas, incluímo-nos numa família mais ampla com a qual temos noventa e sete por cento de semelhança genética. Não deixa de ser paradoxal que, enquanto procuramos sínteses totalizantes, abertas para o cosmo, tornamo-nos, no varejo, cada vez mais especialistas, mais míopes. Cada vez mais sabemos mais de menos.

Geramos modelos de comportamento, de economia, de religião, de física, de química, de fisiologia, de evolução no Sambódromo, de circulação de dinheiro, de espalhamento de vírus na Terra, de distribuição da matéria nas galáxias, de expansão do Universo, de distribuição de jogadores no campo de futebol. Construímos suportes para cada aspecto da vida e das ideias, porém demonstramos pouca fidelidade a eles. Sempre consideramos nosso tempo o mais aquinhoado; nossas certezas, as melhores; nossos pontos de vista, os definitivos. Somos, no entanto, volúveis – e como. Na época do descobrimento do Brasil, o Sol gravitava em torno da Terra e os índios não tinham alma. No século 19, a beleza feminina carecia de muito volume corporal e aceitava-se a escravidão. Hoje, ainda se acredita em duende e no poder da guerra para resolver disputas.

A vida é uma peça de teatro em que o primeiro ensaio coincide com a estreia. Detalhe: o texto muda a cada apresentação. Em outras palavras, tomamos decisões cujas consequências, a priori, não sabemos medir. No atual modelo, o futuro promete ser melhor que o presente, embora desconheçamos como e por quê. Porque duramos mais que nossos avós, postulamos que nossos netos devam viver cento e cinquenta anos. Descartamos a hipótese de que o século 21 possa reservar-nos dias amargos graças a decisões tomadas, no século 20, com aparente garantia de prudência, tecnologia e conhecimento.

Se alguém me pedisse para montar um modelo em que juntássemos internet, ETs, o cometa Hale-Bopp, castração, tênis Nike, religião, tranquilizantes e vodca, eu não saberia por onde começar, muito menos supor que alguém pudesse acreditar no monstrengo gerado por esse coquetel indigesto. Pois esses ingredientes fundiram-se nas cabeças e nos corpos dos seguidores de uma seita maluca dos Estados Unidos, a Heaven’s Gate. Trinta e nove deles, calçados com Nike e bêbados com vodca e calmantes, suicidaram para alcançar um suposto Portal do Céu, escondido no rabo do cometa Hale-Bopp, no qual Jesus Cristo em pessoa estaria viajando pelo Universo, escoltado por ETs. Todos os trinta e nove abraçaram um modelo que lhes fez sentido e sacrificaram-se em nome dele.

Apenas como exercício de imaginação, penso na possibilidade de, num momento de loucura, desconhecimento ou distração geral, a humanidade embarcar em disparate similar. Por que não? Afinal, somos viciados em ligar uma ideia a outra. Nada nos garante que sempre tomaremos a decisão correta, sobretudo quando considerados períodos mais longos, em que os efeitos perversos se multiplicam: a possibilidade de acertar cem por cento das vezes é nula. Louvamos paradigmas, aceitamos dogmas, admitimos preconceitos. Temos exemplos de países ditos desenvolvidos que acataram absurdos de seus líderes. Épocas inteiras praticaram aberrações. Quem sabe já tenhamos feito opções cuja nocividade descobriremos tarde demais? Até que ponto podemos conciliar o presente com o futuro? Como garantir o bom senso ante a tentação da loucura? Estaria eu louco ao aventar estupidez em escala universal? O tempo o dirá.

Como disse, a vida parece uma peça. Também no sentido de engano, logro, embuste, ludíbrio. A vida prega muitas peças. Ela nos poupará da insensatez coletiva? Sobra-nos o velho consolo. Quem brinca com fogo pode se queimar, porém, sem ele, a humanidade jamais teria sobrevivido pelos últimos cem mil anos.

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

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