Sinais [Rubem Penz]

Posted on 11/12/2015

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Rubem Penz*

O primeiro sinal chegou com os óculos de leitura. Aqui e ali, meus pares já ostentavam um deles no bolso ou na bolsa. Única maneira de enfrentar cardápios com suas letras enfeitadas em restaurantes de iluminação insuficiente. E o irônico é que, em outros tempos, nos quais eram dispensáveis, quase só olhávamos para a coluna do preço, geralmente de fácil leitura. Chegava a época de empresta teus óculos, por favor?; de quantos graus é esse teu?; já perdi dois por falta de hábito… Logo, qualquer leitura, mesmo com letra de bom corpo e iluminação adequada, passou a pedir o auxílio das lentes.

O segundo sinal foram as felicitações de vestibular. Começaram esparsas: “Fulano Bixo em Direito, orgulho do papai!”, “Sicrana – já temos médica na família!”, “Engenharia na Federal”. Nem precisávamos ligar o limpador de para-brisas da tela do computador. Daqui a pouco, porém, as mensagens de júbilo tornaram-se torrenciais. Até hoje, e neste dezembro já começou, muitos amigos e amigas meus noticiam a chegada dos filhos nos bancos escolares do ensino superior. Pior: as togas já aparecem em fotos esparsas, nem bem cessou a chuva de “Bixos”.

O terceiro sinal precisou do primeiro sinal para acontecer: minha turma começou a trocar informações sobre medicamentos, e as bulas são escritas, quando muito, em corpo 8. Pouco a pouco, há quem esteja escravo dos remédios de uso contínuo. Dos males que afligem, esse é o menor: no passado recente, a falta de diagnóstico ou de tratamento ceifou muitas vidas de maneira prematura. O pessoal também passou a trocar dietas, receitas informais e dicas de saúde para evitar o surgimento de isso e de aquilo nos músculos, ossos e articulações. E as comparações por vezes maltrataram: “Olha lá, parece ter vinte anos menos que você!”. Puro exagero.

O quarto sinal, lamentavelmente, chegou com os atos fúnebres dos nossos pais. Por mais que a medicina esteja evoluindo e nossa expectativa de vida suba nas estatísticas, depois dos setenta e oitenta anos a fatídica natureza faz muita gente mudar de plano. Isso, ou a dupla carga para meu pessoal – cuidar dos filhos e dos pais, cada qual com demandas diferentes, ambos precisando de atenção e zelo. Foi quando a finitude passou a assustar. A permanência, também.

Lembrei de tudo isso porque, numa única semana, dois de meus ex-colegas de Colégio Anchieta aparecem em lindas fotos com recém-nascidos. Transbordam alegria. Emanam orgulho. Irradiam amor. Contagiam. Mesmo sendo exceções, experimentam algo que – meu Deus! – sempre acreditei tão distante de meu horizonte pseudo-juvenil. Parece mentira, parece precoce, parece loucura: ao que parece, ainda em conta-gotas, minha geração começa a ver seus netos. Este talvez seja o quinto sinal. Sinal de quê? Bom, ainda bem que sei a resposta. Se não soubesse, talvez já estivesse diante do sexto.

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro o Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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