Lição de surrealismo (Este não é um texto surrealista) [Alexandre Brandão]

Posted on 13/12/2015

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(Imagem: Átila Roque)

Alexandre Brandão*

 

“Pense que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva depressa, sem assunto preconcebido, bastante depressa para não reprimir, e para fugir à tentação de se reler. A primeira frase vem por si, tanto é verdade que a cada segundo há uma frase estranha ao nosso pensamento consciente pedindo para ser exteriorizada.” (Manifesto do Surrealismo, André Breton, 1924)

Enquanto teço o silêncio que roubei aos mortos, você borra sonhos e lustra angústias. Vamos engolir um sete a um sem eloquência. Vamos sem ir. Para ver se passa. Se passa a dor. Se a roupa se passa sozinha. Se o dia pássaro. Se o pássaro anoitece. Se a noite adoenta. Se a doença compensa. Se o pensamento cala a boca das sobras palavreadas ao longo da vala incomum da mudez.

Enquanto rego meu choro com caldo sulfúrico, você suspira feito amor perdido, cantando a liturgia turva do ocaso. Do ocaso de caso perdido. Das perdas petrificadas. Das pedras lanhadas no lodo. Do lodo esquecido na mão que o tentou deter. Da detenção dos matadores coxos da ingenuidade.

Preciso, masco ventre e mente. Quando não, desvario vazio, consumido em canudos de doce de leite. Você cata coquinhos na manhã lisa e sem brisa, e eu lhe pergunto se já esculpiu vento num soçobro. Quem inespera meus clamores?

Para mergulhar em tudo que nos é tão próprio e único, o empurrão de um baseado, o gosto ocre-duro do uísque, a dança vertical de um coro de violinos ou o segredo que só os oboés guardam quando soprados. Três perguntas secas descansam à escuridão: De quantos navios nenhuma tábua corrida? De quantos rios nenhuma alma varrida? De quanto dinheiro nenhuma felicidade comprovendida?

Chegarei, sim, no dia não. Chegarei a cavalo, cavalo montado em meu cansaço baio. Papai, tenho piolhos ainda. Mamãe, são caraminholas que coçam e caçoam. Nenhum peixe no anzol vergado pela leveza da água — isso que veio da lágrima do peixe, segundo Adriane Garcia. Pisceomasoquistas choram pelo único prazer de nadar nas próprias lágrimas. E nadam. Nado também. Nada. Na(da)dor.

Agora, daqui a pouco, nunca. O tempo coleciona relógios famintos, cuja fome mal tiquetaqueia, berra. O berro atravessa a hora. Ao ir sem ir, a hora é uma luz vagarosa. Você paranda pelo sono dos sapatos e pisa em mim, capacho ao pó recolhido. Somos cágados, sujos filhos de um dos deuses desbraçados, esses mitos que crucifixam uns nos outros. Nós somos o prego. Nós somos o pau chutado da barraca. (E aproveitado na cruz. Também no credo.)

Isso não é tudo.

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

Isso não é tudo.

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