Coisas, talvez só coisinhas [Raul Drewnick]

Posted on 06/12/2015

5



Raul Drewnick*

Talvez tivesse sido um passarinho, talvez o homem que havia acabado de passar por ela. O fato é que, vendo-se de repente com uma flor na mão, ela a trouxe ao colo, para protegê-la do frio da manhã.

***

Na saída da igreja, a noiva atirou o buquê e o fez tão desastradamente que precisou apanhá-lo de volta, porque lhe caiu na cabeça. A isso se atribui a circunstância de, três meses depois, ela haver abandonado o marido para ir viver com outro homem.

***

Subitamente ele foi tomado por uma ternura tão aguda que sentiu o ímpeto de beijar as flores no canteiro principal do parque. Temendo parecer insano, não o fez. Ajoelhou-se, porém, e lhes disse bom dia, com a voz que usava para falar com os pássaros.

***

Primeiro o escritor comete o ato. Depois chama o leitor para ser seu cúmplice.

***

Na boca dela toda palavra era bela. Até um cacófato soava bem.

***

Quando comentaram que o garoto no caixão parecia mais corado que nunca, alguém disse que talvez fosse uma timidez natural num morto ainda não totalmente cônscio do seu estado.

***

Resolveu não chamá-la de fada, embora toda vez que ela ajeitasse os cabelos o ar se pusesse em alvoroço, como se tocado por borboletas.

***

Quando ele diz “amor”, espera seu violino interior ferir a nota mais aguda e, quando ele a fere, sente que a alma, que só essa palavra de quatro letras acordaria, desperta em êxtase, como uma flor abrindo-se para oferecer seu orvalho ao sol.

***

Para nos transformar, a arte há de provocar em nós uma vertigem ou ao menos uma estranheza, jamais uma sensação de identidade.

***

Hoje o normal seria Adão e Eva morarem num paraíso fiscal.

***

Se o amor está mesmo ultrapassado, mandem-me, por favor, ao passado, a um ano em que haja uma mulher, ao menos uma, que não ache desarrazoado alguém morrer de paixão por ela.

***

Nascido numa época em que amores desenganados bebiam soda cáustica ou se atiravam de viadutos, ele deplora sua falta de heroísmo toda vez que escreve um de seus poemas lamurientos.

***

Dez amplexos jamais chegarão a valer um abraço.

***

A literatura tem as costas largas. Quanta vagabundagem ela carrega. Anos, às vezes décadas, sob a promessa, sempre adiada, de uma obra-prima.

***

Os suicidas costumam ser pessoas sérias e bem-compostas, dessas que para as ocasiões solenes escolhem a melhor roupa.

__________

Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

Anúncios
Marcado:
Posted in: Uncategorized