A gargalhada do anjo [Mariana Ianelli]

Posted on 05/12/2015

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Mariana Ianelli*

Não tem como alguém se prevenir, está fora de todo controle. Uns chamam a esse fenômeno de ironia da vida. Podiam também chamar de gargalhada do anjo. É o que desbanca a noção de tempo retilíneo e traz de volta qualquer coisa que pensávamos já esquecida, resolvida, sepultada. Quando é a vida que dá de ser irônica, não funcionam mais placebos como “ o que passou, passou”, “olhar para trás jamais”, “tempos idos não voltam”. Pois voltam. Ah se voltam. Voltam à altura de espantar tal qual fossem coisa nova. São gestos, palavras, histórias que amadurecem depois de décadas, frutos serôdios perfazendo um ciclo próprio, roubando nossa esperteza de assassinos perfeitos, que nos achamos senhores não só dos acontecimentos, senão também de sua duração, donos do que na nossa vida não somente está em curso, mas ainda do que decretamos morto com um ponto final. É daí que vem o Livrão da vida mostrar que não se conforma a roteiros, programas, fórmulas, previsões. Que é tão pueril nossa soberba de autoria dos fatos, e de seus desdobramentos, diante da vida, da vida mesma, insuspeita em seus blefes e na sua graça. A grande literatura já muito explorou essa gargalhada do anjo. Está ali, no reencontro de Konrád e Henrik, quarenta e um anos mais tarde, como dois velhos com seus charutos acesos, tratando de convicções que pesam mais que provas, sentados no escuro de uma sala em frente a um fogão de porcelana, em “As brasas”, de Sándor Márai. Está ali, na carta de Harry Shawmut à senhorita Rose, trinta e cinco anos depois de uma ofensa bizarra, justificada com um relato de vida tragicômico a que não faltam os terrores da velhice e o argumento-álibi da existência das forças irredimíveis do Fatum, em “Trocando os pés pelas mãos”, de Saul Bellow. E ali está – quem não se lembra? –, num dos mais pungentes romances de García Marquez, no amor passado de maduro entre Florentino Ariza e Fermina Daza, a bordo do navio Nova Fidelidade, na canícula de dezembro pelo rio Madalena, com a bandeira do cólera içada no mastro maior, numa resposta da própria vida depois de cinquenta e três anos, sete meses e onze dias de desejo e espera. De maneira que é no mínimo prudente desconfiar de todo adeus, todo dezembro, toda estátua de sal, porque quem ri por último, e ri melhor, é sempre o anjo.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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