Notícias da chácara [Domingos Pellegrini]

Posted on 07/12/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi) 

NO JAZZ aprende-se a ouvir cada instrumento; na chácara, a ouvir a chuva. Bate no telhado, farfalha na folhagem, batuca na bananeira, escorre do beiral, jorra da calha, murmura na enxurrada, gorgoleja no ralo, dá suadouro nas paredes, embolora nos armários, cultiva o tédio e aumenta as contas telefônicas.

BRANQUINHA todo dia vai conosco à academia na praça, o rabo abanando feliz, farejando tudo, passo ligeiro e olhar agradecido. Gosta de correr de outros cachorros pelo gramado, tão veloz que nenhum consegue alcançar a bichinha, que depois volta para nós com língua de fora e olhar triunfante. Mas, outro dia, apareceu cachorro grande que rosnou  arreganhante para ela e, imediatamente, um chumaço de pelos se levantou na base de seu rabo, do tamanho de meia bola de tênis. O cachorro se foi, o inchaço cessou. Nada muito surpreendente, se lembrarmos que nosso cóccix é resquício do tempo em que tivemos rabo.

PLANTAMOS dois oitis na calçada da praça, e, com tanta chuva,  estavam bonitos que só vendo, mas alguém arrancou o ponteiro de  um deles. Alguém apedrejou Jesus, alguém enxugou seu rosto. Alguém cata lixo na calçada, alguém joga lixo do carro. Alguém canta, alguém xinga.

Então botamos mais esterco seco nos oitis, a lhes dar força para resistir, crescer com troncos fortes resistentes a agressões. A agressão passa, o crescimento continua. Enquanto houver sol e chuva, plantaremos. Como  dizem os Stones, o tempo está do nosso lado.

BEIJA-FLOR voeja de flor em flor, a mostrar como se parece com o elefante: um tem bico comprido e outro compridos chifres, ambos estão sempre comendo e não fazem mal a ninguém.

CAETANO  estreou a enxadinha comprada para ele, todo feliz, capinando mato aqui e ali, tanto que os cabelos grudaram suados na cabeça. Depois, tomando suco, perguntei se gostou da enxadinha, e ele pensou antes de responder: – Gostei, vô, mas é enxadinha pra você que é gente-grande, pra mim é minha enxada!

RECEITA super-simples: arroz integral com batata-doce. Faça o arroz integral do jeito que quiser, apenas coloque a batata junto, e ela ficará molinha e saborosa. Com arroz comum também dá certo, só que a batata fica meio durinha, “al dente”. Vó Tiana sempre deixava algumas no forno do fogão a lenha, onde passavam até de um dia para o outro, ficando com parte da casca torrada; e o menino chegava, abria o forno, cortava a batata no meio, despejava melado e comia com colher. É minha mais doce lembrança da infância. Quando Vó Tiana morreu, tirei do forno a última batata e comi, mesmo sem melado; com lágrimas; e, aos doze anos, pela primeira vez me senti homem.

HAICAIPIRA: A gente  cresce /   de repente  sempre / que se enternece.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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