Que tudo passe [Domingos Pellegrini]

Posted on 25/05/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

O primeiro disco de George Harrison, depois que os Beatles acabaram, chamou-se Todas As Coisas Tem de Passar.

Sim: que tudo passe, das paixões aos impasses.

Vimos tantos filmes VHS! Aquele cartucho enorme, enfiável num aparelho ao lado da tevê de tubo grossa feito toco de açougue!

Pois é, também passamos do toco de açougue para o balcão frigorífico dos supermercados.

E, depois de tanto VHS, vimos tantos DVDs, que porém também passaram, como estão passando os CDs, que já foram fita cassete um dia, quem diria.

E, antes da fita cassete, só existia o gravador de rolo, antes do qual nada se gravava, os sons perdiam-se para sempre. As orquestras tocavam maravilhosamente e eram ouvidas só por quem estivesse no teatro.

A nonna ouvia rádio-novela tricotando com os pés na cadeira de palhinha, pitando palheiro e cuspindo na escarradeira –  e passaram as rádio-novelas, passaram os palheiros e as escarradeiras. As cadeiras de palhinha, porém, tornaram-se chiques; de tudo fica um pouco, conforme o poeta.

Meu neto pega músicas em alta fidelidade na nuvem da internet. Outro dia descobriu minha coleção de discos long-plays no porão, perguntou: que é isso, vô? Música, falei. Ele foi tirando os discos negros das capas, até perguntar: são músicas de luto, vô?

Sou do tempo em que guri trepava em árvore e as mães davam graças a Deus, ao menos estavam à vista.

Espero que as árvores não passem. Nem a vontade moleca de trepar em árvores e em telhados.

E que também não passem os papagaios, voltem todo ano no céu dos arrebaldes, empinados por guris tão hábeis quanto descalços, e que seja por gosto, não por falta de sapatos.

Também não passem os piões, as bolinhas de gude, os bilboquês e os carrinhos de rolemã, apesar de tanto asfalto esburacado. Se passarem, que não seja porque os guris só tem olhos e dedos para celulares. Não deixe, Deus, não deixem, pais, que percam a infância só enfurnados numa telinha.

A corrupção é que podia passar, ou ao menos diminuir. Mas isso não depende de Deus, né, mas de nós.

Também não passe  a vontade de comer pipoca em noite de frio, de chupar pirulito em festa de criança, de correr com cachorro em gramado, de chupar manga se lambuzando, de beber água de mina na palma da mão.

Passem os poentes, maravilhosamente. Mas não passe esta vontade de andar ou ver tevê de mão dada com meu amor, e o gosto de ser honesto mesmo quando parece que a ladroagem tomou conta de tudo.

E que passem as modas, mas o coração continue com a corda toda.  Amém.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. 

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