Coletânea de rabiscos [Raul Drewnick]

Posted on 24/05/2015

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Raul Drewnick*

Andamos tão mal-­humorados e aborrecidos com o mundo que não estranharei se um dia destes um repórter da TV der nota 6 a um arco­íris.

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Diante da gramática nos sentimos sempre como se nossa gravata estivesse toda babada e tivéssemos esquecido de fechar a braguilha.

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Por que os verbos irregulares não têm a licença cassada?

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Um paralelepípedo é um proparoxítono com mania de grandeza.

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No primeiro dia o menino desenhou o céu, e viu que era bom. No segundo desenhou o mar, e viu que era bom. No terceiro notou que o lápis estava sem ponta e ficou com preguiça de continuar brincando de Deus. Como último ato, decretou que era domingo e foi descansar embaixo da ameixeira.

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Quando a vi, pensei que fosse uma princesa. Só duvidei depois que ela, estando ali tanta gente, olhou e sorriu para mim.

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Se o avião caísse, morreria com o poeta o poema que, pelo início, prometia, como tantos outros, ser o mais belo de todos.

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Com a ajuda do vento, cavalheiresco amante, a árvore sacode a chuva e prepara-­se para o sono do qual só será acordada pelos passarinhos.

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À noite, os gritos que suplicam por amor, amor, sacodem as estrelas, mas não são ouvidos pelas mulheres, que estão sempre um pouco acima.

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No meu aniversário, meu amor me deu uma camisa de força.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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