Cauby [Carlos Castelo]

Posted on 26/05/2015

2



Carlos Castelo*

“Olha só o que tem aqui na frente da nossa porta!”

Foi assim que o filhote de rolinha foi anunciado por minha mulher. Era um dos primeiros dias frios do ano e ele estava encolhido de tal maneira que mal dava pra ver suas patinhas. Quando ela o apanhou deu pra ver que era mesmo recém-nascido, as penas estavam mais pra penugem. No momento em que viu-se acima do chão – devia ter caído do ninho que estava no pé de maracujá – deu um pio estressado.

“Imagina quando a Lulu vir ele!” – animou-se a esposa.

Lulu é Luísa, a nossa bebê de dois anos. Tem uma coleção de pássaros de brinquedo: garças, patos de borracha, um periquito magenta que assobia e toda a árvore genealógica da Galinha Pintadinha. E, claro, ficaria felicíssima de ter uma ave de verdade.

Faltava meia hora pra ela voltar da escolinha e precisávamos dar um nome ao novo inquilino. Logo o chamei de Cauby, numa homenagem ao intérprete de “Conceição”.

Ao chegar da escola, Lulu não acreditou ao dar com o bichinho em cima do balcão da copa. Mas Cauby continuava numa postura meio encaramujada. Ainda assim o rosto da meninazinha brilhou ao vê-lo.

De cara já começou a gritar: “Cauby, Cauby!”

Só que o penoso ficou na dele.

Devido à apatia, começamos a nos preocupar em como alimentar o hóspede. O que comeria um filhote?

O passo mais óbvio seria uma pesquisa no Google. Descobri que o ideal era comprar uma papa especial para filhotes. Mas miolinhos de pão embebidos em água, e ministradas com um palito no bico do animal, também surtiriam efeito.

Como chovia e a papa teria de ser adquirida numa loja não muito perto de casa decidi preparar os miolos de pão.

Aproveitei o soninho da tarde da Lulu pra cuidar do repasto. Hidratei tudo cuidadosamente e dispus um micropedaço na ponta do palito. Coloquei o visitante na palma da mão e ajudei-o a bicar o maná.

Cauby mordiscou com vontade e parecia querer mais. Repeti o gesto. Só que, dessa vez, ele não apreciou a coisa.

Relutou em engolir e, pra minha grande surpresa, deu uma pequena pirueta em torno de si mesmo, mais uma em forma de voluta, virou os olhos, e faleceu.

Fiquei segurando aquele pedaço de penas mortas durante um longo tempo, sem compreender como Cauby podia ter feito aquilo comigo. Era uma tremenda desfeita. Se tivesse partido pra um outro plano de madrugada, por não ter resistido ao frio do outono, tudo bem. Mas resolver dar um shut-down no instante em que estava sendo nutrido era, no mínimo, uma petulância.

Quando a bebê acordou foi logo perguntando: “Cadê o Cauby?”

“A mamãe dele veio buscar” – respondi.

Os olhos dela ficaram úmidos.

“Coitada da dona passarinha, estava preocupada com o filhote que caiu do ninho” – completou a esposa.

Lulu entendeu, pegou uma ararinha da sua caixa de brinquedos e a botou no colo. Falou, acariciando-a: “Mamãe não vai deixar você cair do ninho, viu?”

Fui pro quarto, liguei o computador e escrevi este texto. Pra não dar o vexame de chorar na frente da filha por causa de um Cauby mal-agradecido.

__________

* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenal

Anúncios
Posted in: Uncategorized