Situação: você sabe que tem uma coisa, ainda que seja algo de rara necessidade. E você tem certeza que deveria estar guardada no lugar certo, lembra de quando comprou, por que comprou, onde pôs… e não encontra! Aí apela para uma busca em outros armários, gavetas ou caixas possíveis, em diversos cômodos da casa, tudo em vão. Pior: o tal “momento raro” se apresenta. E nada.

Pergunta: você lida com a situação numa boa? Se enfurece? Pragueja? Transforma isso em um problema paralisante? Ou, de modo zen, conforma-se? Eu – que não devo ser modelo ou padrão de comportamento para ninguém – fico muito incomodado, irritado em intensidade média e quase nada satisfeito. Este efeito é potencializado pela anterior – e feliz – certeza de posse do objeto capaz de resolver o problema, seja ele pontual ou duradouro.

Um exemplo: faz um tempo comprei uma cadeira que chegou desmontada. Montei. Seus parafusos são do tipo Allen. Não conhece? São aqueles com encaixes sextavados na cabeça, os quais, obviamente, demandam uma chave específica, denominada – tcharã! – chave Allen. Porém, com o uso, um dos parafusos afrouxou-se. Sem estresse, muitos anos antes de comprar a cadeira, eu já tinha um estojo com diversos números (tamanhos) de chaves Allen, guardado em minha caixa de ferramentas. Mas, cadê?

Resultado: a exata cadeira está, no momento em que escrevo, apoiando minhas nádegas. Faz dias que notei o problema de solução suavemente procrastinada, até o ponto “de hoje não passa” – limiar inexato e suficiente para evitar sua quebra. Virei a casa de cabeça para baixo e, a única chave que achei, solta (e isso já é um erro), é maior. Não serve. Ou serve apenas para ser testemunha de que as irmãs existiam antes de serem extraviadas.

Conclusão: enquanto você lê, eu já posso estar no pronto-socorro, vitimado por uma quebra de cadeira (ou das cadeiras). Se não, no mínimo com um mau humor terrível causado pelo prejuízo de tempo e dinheiro na recompra de chaves Allen perdidas no além.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.