Em quarentena [Mariana Ianelli]

Posted on 21/03/2020

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Temos visto de tudo nesses tempos de peste à solta. Gente sendo solidária à força. Gente doente só de se ver tolhida em suas vontades e vantagens. Também uns santos na linha de frente socorrendo os esquecidos pelas ruas. E ainda os consortes da peste, a postos para recrudescer o surto, como aquele assassino do poema de Carol Ann Duffy, que, estando farto de ser ignorado, enfim resolve mostrar seu poder de influir no mundo.

Em sacadas e janelas, as pessoas cantam, tocam sanfona, batem panela, gritam. Paralelamente à angústia humana, a natureza agradece, reverdece, leva peixes e cisnes para os canais de Veneza, abre o céu da China para um inominável azul. Ruminamos lições de comunidade experimentando a carne e o nervo de palavras tantas vezes manipuladas mal e porcamente. O amor em mínimos cuidados táteis. O respeito pelos outros ao nos tornarmos quase invisíveis para eles. A gentileza na suspensão de muitos gestos corriqueiros, a gentileza rompendo a casca da palavra gentileza.

No Egito, o medo desce o Nilo. Na Polônia, os velhos não são esperados nas missas de domingo. Em Bangladesh, o temor é mais espesso nos campos de refugiados rohingyas, que sobrevivem de orações e da misericórdia alheia. Na Tailândia, macacos se engalfinham por comida. Fecharam o Taj Mahal, o santuário de Lourdes, a Estátua da Liberdade. O papa abençoa a Praça de São Pedro vazia. Na Espanha, os touros permanecem vivos. Estão cancelados o abraço da paz, as mãos dadas no Pai Nosso, a hóstia na boca.

As campanhas de alento público aos isolados são pela leitura de bons livros, sessões domésticas de filme e música, mas o que fazer se a mente tem o olho cravado nos fatos se sucedendo a uma velocidade indomável, e o olho tem a alma posta nas dores possíveis dentro de cada casa, nos pequenos pesadelos pessoais impublicáveis dentro do grande pesadelo comum? Há gente que está rezando pela primeira vez depois de décadas. Gente que talvez desse tudo por um sorriso de Buda, ainda que fruto de loucura. Também loucos esperando normalmente. De fato, temos visto de tudo nesses tempos.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre (ed. ardotempo, 2013). Depois, escreveu Entre imagens para guardar (ed. ardotempo, 2017), também de crônicas. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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