Sobre poetas e similares [Raul Drewnick]

Posted on 22/03/2020

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Para saber se é primavera, o velho poeta agora precisa encontrar os óculos e, depois, ver onde está a folhinha.

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Se o poeta demorasse um minuto para abrir o guarda-chuva, seu belo crânio parnasiano seria atingido pela multicolorida queda do arco-íris concretista.

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O velho poeta vai se esquecendo das coisas. Hoje apontou para o alto (o que é aquilo?). Era o sol.

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Mal ou bem, viver é tudo que nos resta fazer.

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Sempre foi um bom homem. Desde menino já se podia apostar que seria um defunto exemplar.

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A maior das sabedorias é desconfiar um pouco de todas e não ostentar nenhuma.

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Vou me exterminando  aos poucos, dia a dia, para manter a ilusão de que sou um exterminador eficiente e tenho muito a exterminar.

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O poeta Manoel, construtor de maravilhas, era aparentado com os joões-de-barro.

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Para impressionar a garota, o velhote diz ser poeta e, atento ao rosto cheio de adoráveis espinhas, espera a resposta. Depois de estourar compenetradamente três bolas de chicle, ela volta aos assuntos terrenos e pergunta: isso é grave?

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Seria um engano dizer que as estrelas seguiam Mario Quintana. Era só uma, pequena entre as menores, que às vezes o acompanhava  para conversar sobre miudezas que, habitualmente menosprezadas, são o assunto preferido para os seres sensíveis.

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Se você julga mesmo ser um poeta, deve acreditar, se não em todos, ao menos em milagres corriqueiros. Como esse de ser poeta.

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Como algum provérbio provavelmente já disse, calar-se é às vezes o melhor modo de exprimir-se.

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Na mão de Mario Quintana, um cigarro só não se transformava em vaga-lume se não tivesse nenhum senso poético.

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São poetas de duas castas: os românticos preferem humanas; os concretistas, exatas.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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