Ah, Estocolmo [Raul Drewnick]

Posted on 14/07/2019

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Estocolmo seria o nome ideal para aquele tipo de mulher que, única na perturbadora opulência de sua carne, não faz senão negá-la a vida inteira.

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Escrever todo dia pode te fazer bem, mas fará à poesia?

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A vida foi sempre uma ilusão, é certo, mas nunca como no tempo dos musicais da Metro.

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Escrever é um vício barato. Bastam uma canetinha, um bloco e uma ingenuidade com pretensões de idealismo.

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Os amores impossíveis não se resignam. Crescem reprimidos, ignorados, e engendram flores de olor ácido e frutos de letal veneno, regados pelo mais feroz e inapaziguável de todos os rancores.

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A presença dos  poetas parnasianos era denunciada pelo cheiro dos cisnes e dos pombos e pelo tilintar das chaves de ouro.

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Certos discursos fúnebres são tão escandalosamente laudatórios que o homenageado só não cora porque não pode.

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Os que morreram de amor têm hoje o nome reverenciado: Afonso, o sonso; Edgar, o muar; João, o bundão; Arnaldo, o tapado.

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Se você ouvir minha voz, não se deixe enganar. Pode um morto falar?

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Escrevo cada dia menos. Deus ouviu as preces dos meus leitores.

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Quando desço o porrete no que escrevo, não é questão de modéstia, mas de honestidade.

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Com o último poeta romântico morreu o segredo de transformar flores em poesia.

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Se escrever é algo que você faz até dormindo, é bem hora de acordar.

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Há quem aceite Deus como criador do mundo pela simples razão de que para tudo há de haver sempre um culpado.

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O objeto mais triste do mundo é um sofá sem um gato.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas