Uma tal alegria! [Cícero Belmar]

Posted on 15/07/2019

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Presentear um amigo com livros novos é de muito bom gosto. Mas, tirar um livro da estante e ofertá-lo a um amigo, uma obra que a gente guarda com carinho, é um gesto de muito significado. Vai além do objeto. Além do físico. Atinge outra dimensão.

A quarta dimensão é esta, a gente sente e sabe que existe, mas não toca. E os livros, que retiramos da estantes para doar, têm esse poder de transcender da terceira para a quarta. Um livro querido, que se doa, percorre esse mistério.

Em resumo, doar um livro que a gente amou durante a leitura é o mesmo que doar a emoção sentida. Se nós nos encantamos com as palavras, se elas nos permitiram voltar ao passado ou nos revelaram imagens poéticas, queremos dar à pessoa escolhida (para recebê-los) essa subjetividade delicada.

Venho recebendo pacotinhos de livros lidos e relidos. Livros que já estão fora de catálogo, de minha amiga Nara Lúcia Santana e Camilo Brollo, seu marido. Os dois são grandes leitores e têm uma biblioteca particular que, desculpem o clichê, é um tesouro.

Nara e Camilo tomaram uma decisão há um ano: vão compartilhar os livros, pois acham que é egoísmo deixá-los parados na estante. Os livros, que lhes deram tanto prazer, não podem ficar à espera das traças. É um gesto de amor também para com os livros.

Amor que gera amor. Estão relendo e, à medida que revisitam essas preciosidades, fazem doações. Para isso, escolheram quatro ou cinco amigos que eles sabem que cuidarão bem dos exemplares, para recebê-los. E assim, compartilham conosco obras valiosíssimas. E o afeto.

Tive a graça de ser um dos escolhidos. São pérolas latino americanas e brasileiras, exemplares que o casal preservava, com muito cuidado, desde as décadas de 1970 e 1980. Livros raros, raríssimos, geniais, uns clássicos, que não frequentam mais as prateleiras das livrarias. A cada pacotinho que recebo é como se Nara e Camilo me dissessem, de alma para alma: estamos dando o nosso melhor.

Os livros vêm com selos e canhotos das livrarias Livro 7 e Síntese, que existiram no centro do Recife, e hoje são responsáveis por tantas lembranças felizes. Essas livrarias, hoje, fazem parte da memória afetiva.

Já recebi Ópera dos Mortos, de Autran Dourado (que abertura de romance maravilhosa!); Filho de Ladrão (de Manuel Rojas, que título arretado!). Bar Don Juan, de Antônio Callado (arte produzida numa época de repressão); Pessach: a travessia, de Carlos Heitor Cony; Avalovara, de Osman Lins (clássico!!!); Os que bebem como os cães, de Assis Brasil (uma alegoria da vida); O Homem que falava de Otávia de Cádiz, de Alfredo Bryce Echenique (quem pretende ser experimental, leia esse mestre); Até Quarta, Isabela, de Francisco Julião.

Tem mais: O dia em que Ernest Hemingway morreu crucificado (Roberto Dummond); Crônica da Casa Assassinada (Lúcio Cardoso, cabeçudo); Notas de Manfredo Rangel, Repórter (um autêntico Sérgio Sant’Anna); Conversas na Catedral (Mario Vargas Llosa, com tradução de Olga Savary – nossa!!!); A Tumba do Relâmpago (Manuel Scorza). E muitos, vários, outros.

Cada livro desses é uma oficina de texto para um escritor. Para mim, um aprendizado.  Escrevo esta crônica mas não tenho palavras para dizer da alegria que sinto ao receber os pacotinhos. É uma tal gratidão!

Narinha e Camilo, eu só não sei é se terei o mesmo desprendimento de repassar os livros. Sou pequeno. Mas, os presentes estão me ajudando a refletir sobre o desapego e a generosidade.

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Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. Email: belmar2001@gmail.com; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas