Foi num Carnaval que passou… [Madô Martins]

Posted on 24/02/2017

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Madô Martins*

Nos diversos bairros de Santos, seja na orla ou na periferia, o som que preenche o ar é o das 55 bandas que desfilam pelas ruas, resgatando parte dos antigos carnavais. São foliões da comunidade, fantasiados ou não, às vezes, famílias inteiras, que percorrem a pé alguns quarteirões acompanhados por um caminhão de som, a entoar velhas marchinhas e músicas de agrado popular transformadas em hits carnavalescos. Vão se apresentar até a Terça-feira Gorda, embora o Carnaval oficial, das escolas de samba, tenha acontecido precocemente. Foi  antecipado e, por isso, já na terça passada, acontecia a apuração das agremiações vencedoras, sagrando-se campeã de 2017 a X-9, conhecida por aqui como “A pioneira”.

Já fui grande apreciadora da folia, a ponto de, durante o reinado de Momo, brincar nos salões todas as matinés e noites, em companhia das primas, sob a guarda dos tios. Após a maratona, na Quarta-feira de Cinzas amanhecíamos todas roucas, subnutridas e resfriadas, porque comer e dormir eram perda de tempo, ainda não havia ar condicionado nos clubes e, depois de pular e cantar horas seguidas, ao voltarmos com a fantasia molhada de suor, apanhávamos o vento frio da madrugada, indiferentes ao cansaço.

Mas, praticamente já não existem bailes de Carnaval nos clubes e os clubes tornaram-se tão diferentes daqueles que frequentei que, para quem ainda festeja estes alegres dias, restaram as bandas como consolo. Elas ainda enternecem pela singeleza e ingenuidade.

Também há muito, deixou de acontecer o Corso, quando carros particulares desfilavam pela avenida da praia, promovendo guerras de confete, serpentina, talco, café, farinha, lança-perfume, baldes de água e tudo o que pudesse ser lançado em quem fizesse parte da carreata (nome que também não existia). As garotas, eu entre elas, desfilavam sobre o capô; os rapazes promoviam a batalha em plena rua; os pais dirigiam pacientemente, porque os carros não ultrapassavam os 5 km por hora; as mães avaliavam a sujeira que levaríamos para casa, quando tudo terminasse.

Não havia qualquer preocupação com o politicamente correto, inclusive, o desperdício de alimentos. Éramos felizes, sem roupas provocantes ou gestos obscenos, sem agressões físicas e, muito menos, assaltos. Mais adiante, também deram fim ao tradicional Banho da Dona Doroteia, quando marmanjos vestidos de mulher – muitas vezes, com roupas de papel crepom ou emprestadas pela mãe ou irmãs, iam em bando dançar e cantar marchinhas na areia e encerravam a festa com um insólito banho de mar.

Lembro de tudo isso com muito carinho, porque o Carnaval de então era risonho e franco. Hoje, já não me interesso pelo desfile oficial que, banido para um sambódromo distante,  estabelece concurso com prêmio em dinheiro e separa as escolas de samba em categorias, gerando uma acirrada competição entre elas. E tenho que reconhecer que as bandinhas dos bairros, acessíveis aos olhos e ouvidos, são melancólicos arremedos do que foi brincar, um dia.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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