O piano do museu da família [Mariana Ianelli]

Posted on 25/02/2017

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Mariana Ianelli*

Reerguer o tampo do piano, agora, é como uma violação. Voltar a tocá-lo. Você não pode, ninguém pode. Ele é uma peça do museu da família diante da qual alguém só pode se sentar para ouvir histórias. Veio de Minas Gerais. A bisavó tocava nele Asa Branca e Tico Tico no Fubá. Contam que por muito tempo emudeceu e serviu de esconderijo a uma pilha de livros vermelhos. Nas festas regadas a vinho e uísque, mostrava seu lado burlesco em canções de fim de noite meio cômicas meio obscenas. Aceitava as mãos de todo mundo, da tia-avó concertista, do professor de música bêbado, das crianças estabanadas, da mãe com seus segredos. Contam que houve um tempo em que escondeu dinheiro. Aceitava de tudo, que lhe tocassem a boca e as vísceras, que lhe tocassem com delicadeza, com vigor preciso, de qualquer jeito. Ia do sublime ao escracho em diferentes momentos do dia, da candura ao caricato, da tristeza à mentira. Nas tardes de visita da tia-avó, redespertava em espetáculos privados de Chopin, Mozart, Liszt. Última vez que encheu a casa foi um século depois de seus dias de glória mineira. Já completamente desafinado, como um cavalo de músculos frouxos instado a cavalgar uma vez mais, encheu a casa, chicoteado pelas mãos de um adolescente, que tocava para uma menina deslumbrada na noite dos seus quinze anos feitos. Depois fechou sua boca, guardou seus dentes de marfim sob o tampo de madeira. Anos mais tarde, alguém descobriu dentro dele um revólver como fosse um brinquedo. Então virou relíquia de memória. Um piano da linhagem daquele que ainda hoje existe numa casa-museu em Valderrubio. Um piano de armário com candelabros. Nos candelabros, tocos de velas do tempo em que as velas ardiam a noite inteira.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas