A Morte e outras vivências [Raul Drewnick]

Posted on 20/11/2016

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Sua principal atividade, agora, é cochilar. Cochila de manhã e à tarde, sentado no sofá. À noite, assim que se deita na cama, o sono lhe vem, generoso. O único pesadelo que tem, com alguma freqüência, é estar cochilando ou dormindo e não ouvir a campainha que a Morte, finalmente disposta a atendê-lo, toca e toca e, cansada, desiste de tocar.

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Ser triste é, mais do que um direito, um dever do poeta.

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Em Romeu e Julieta, cada vez que se topam dez personagens numa praça, morrem onze.

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Reencontraram-se por acaso, cinco anos depois, numa festa. As mãos se apertaram, tão geladas quanto as palavras que por educação mantiveram nos lábios. “Bom te ver”, disse ele, disse ela também, e cada um se esgueirou para um canto do salão, com o rancor magnificamente disfarçado por um sorriso social.

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O amor é sempre aquele assunto que pode nos salvar quando o leitor – e principalmente a leitora – já ameaça abrir o primeiro bocejo.

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Conhecer-te a ti mesmo é tarefa que desempenharás sem muito esforço. Difícil, depois, será te aceitares.

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O amor na velhice é lindo, desde que sejamos só espectadores – e um bocado míopes.

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Eu te agradeço por me matares tão continuadamente, por me manteres tão amorosamente atento à tua crueldade que não tenho tempo sequer para pensar em flores e em estrelas, esses bisonhos objetos de inspiração dos poetas.

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Se ela houvesse me estrangulado naquela manhã, teria usado luvas das quais se livraria imediatamente – não por temer conseqüências criminais, mas por nojo de meu pescoço plebeu.

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Se soubesses o gozo que cada um dos teus elaborados suplícios trouxe à minha carne, morrerias de desgosto. Sinto falta deles, minha querida, e só de lembrá-los minha pele se arrepia, prazerosa.

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Sinto-me como um morto provisório, um defunto em regime de experiência, ainda não autorizado a desfrutar de meu mais desejado direito: o de descansar em paz.

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Já me dei bem melhor com a vida. Era uma época em que ela e eu ainda não estávamos cansados de fingir.

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Tenho cada dia menos pontos em comum comigo. Para reconhecer-me, preciso às vezes buscar meu sorriso no espelho.

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Poemas não têm a obrigação de ser sublimes, mas deveriam ser sempre honestos.

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Quando alguém diz ser um mártir da literatura, deve-se, por amor à justiça, pensar no princípio da reciprocidade.

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Eram belos seus olhos verdes. Garantiam-lhe sempre bons começos e eram depois uma agradável lembrança para as mulheres quando elas percebiam que, além deles, ele não tinha mais nada a oferecer.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas