O remédio ou o trem [Cássio Zanatta]

Posted on 21/11/2016

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Cássio Zanatta*

É grave, doutor? Mesmo? Desse tanto? E o que eu digo ao pessoal?

Se eu estou sentindo alguma coisa? Uma dor bem aqui, outra mais ou menos aí, meio que no meinho, uns arrepios recorrentes e essa tontura que não passa – mas isso é de outra coisa que ando sentindo.

Quero a cura. Hoje. Quero sarar dessas manchas nos braços que me denunciam, dessa carência de aceitação, da total ausência de medo, da bocozice que não melhora, quero picar em 228 pedaços o caderno onde anotei seu telefone, correr até a estação, comprar uma passagem que dê direito a pegar qualquer trem, sem saber em que plataforma ele chega, se parte para a esquerda ou para a direita, e descer na primeira cidade que simpatizar, ou nem descer, ficar para sempre no vagão.

Não quero mais consultas, exames, testar reflexos, dizer “a”, e sim dizer “berimbau”, “muriçoca”, “Epaminondas”, nem quero quase vomitar com aquela colher enfiada na garganta, quero a cura, sem escalas. Estou bem, em paz, de alma limpa, hoje mesmo irritei um amigo de tanto que eu canto, mas a dor é ver os queridos em perigo e isso me definha.

Preciso de morfina para a saudade. Anestesia para o que passa na cabeça. Quero rasgar a imagem da ressonância, mentirosa, esse não sou eu, essa mancha é de outro, o médico disse que não é caso de sei lá o quê. Se não é caso de sei lá o quê, para que me preocupar? Então, esse é o inimigo: o sei lá o quê. Escondido aqui dentro, esperando dar o bote feito cobra, aranha armadeira, é preciso abafá-lo, distraí-lo, com filmes, músicas, leituras. Poesia, não sei se é o melhor remédio ou se entorna de vez. Se é capaz de elevar a gente, vai que dá ideias ao sei lá o quê. Bandeira pode ser a salvação, mas João Cabral pode ser a sentença final. As bulas costumam ter mais certeza.

Estou de ressaca, meu médico estudado, formado, graduado, especializado, e é bem capaz que eu desabe, veja que coisa lamentável, mas é tudo que eu posso fazer no momento. Sou doutor nesses papelões, venho trançando as pernas mesmo sóbrio.

Eu quero sair dessa paralisia para poder ir atrás. Quero roubar o éter da enfermaria. Cantar no estetoscópio imitando o Ney Matogrosso. Jogar todos os rolos de esparadrapo pela janela, como se fossem serpentinas de um Carnaval sem riso nem desejo. Triturar o termômetro na sola do sapato e brincar no chão com as gotas de mercúrio espalhadas.

Não entendo como os americanos ainda não descobriram a cura. Dizem que os franceses estão a um passo, mas eles respeitam o tempo da maturação das uvas e o passo do escargot. Não sei se chegarão a tempo, quantos tombaram no caminho – bagos espremidos – e as taças estão vazias. Agora seja franco: você não faz a mais remota ideia, não é, doutor?

Então vamos todos pegar o trem juntos, às 13:42, na Plataforma B, rumo ao leste. Não levem guia algum, é preciso não haver destino. Alguém traga as passagens, os lenços, minha mala só com cuecas e um único par de tênis. E a mexerica, é preciso descascar a mexerica e lotar o vagão do seu cheiro, para lembrar a todos de como tudo é engraçado.

Eu quero sarar, façam alguma coisa. Se bem que vocês também não andam lá muito bem, tenho notado.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

 

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