Cidadão de bem [Daniel Russell Ribas]

Posted on 19/09/2016

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Daniel Russell Ribas*

Não sei o que estou fazendo aqui. No duro. Alguém me responde? Sou empresário, formado em Direito, pós nos Estados Unidos, pago meus impostos e sou pai de família. Tenho mulher e filhos. Enriqueci com meu trabalho e esperteza. Nunca fui um desses acomodados, que deitam na grana da família e faz porra nenhuma. Ou desses vândalos criados sem orientação, que sai pras ruas pra quebrar agência bancária, aterrorizar a cidadãos de bem como nós. Meu filho tem uns amigos assim na faculdade; ele me contou. Na minha casa, não entram.

Esses são o perigo. São eles que levam este país para o buraco, a devassidão, o comunismo. Eu sou apenas um executivo que tem um emprego estressante. Centenas de pessoas dependem de mim, dentro e fora da empresa. Sou uma das peças que movimentam a economia deste Estado. Sabe onde muitos estariam se não fosse por mim? Desempregados, na rua, na desgraça, na pouca vergonha. É fácil estampar minha foto no jornal e me chamar de demônio. Quero ver aguentar a pressão. E não de dia, não. É de hora em hora. Porque, sem mim, uma parcela do que permite este Estado funcionar vai pro ralo. Sem mim, você não recebe sequer uma mariola.

Sou como qualquer outro executivo responsável por uma fundação com centenas de empregados. Para relaxar, tenho hobbys. Putas, droga, isto é o básico. Todo mundo faz, não tem problema, não machuca ninguém. Até, inclusive, beneficia, pois pago por serviços e movimento o mercado informal, tudo é tributo, eventualmente. Pode-se questionar a moralidade de seus trabalhos, mas, cá entre nós, é uma baita hipocrisia. Se a mulher quer dar a boceta ou o cu, o problema é dela. Quanto a financiar o tráfico, não vejo nada demais. Enquanto houver traficante, haverá menos ladrões, porque eles se empregam por lá, e quem sai da linha, é feito de exemplo. Como na minha empresa. Fez merda? Fora!

Mas não é só de gozar e cheirar que um homem na minha posição pode recarregar a energia. A razão por que fazemos parte de 1% privilegiado é porque gostamos de desafios. A adrenalina é o que nos torna capazes de tomar decisões duras a cada segundo. Tive vários hobbys. Quando era jovem, costumava sair com uns amigos da faculdade e íamos atrás de mendigos. Não para bater, esclareço. Mas, às vezes, ficavam agressivos e sabe como é que é?,tínhamos que nos defender. Muitas vezes, nos atacavam com querosene e, no meio da confusão, botavam fogo neles mesmos. Vê só que loucura?

Depois que casei e a mulher engravidou, percebi que não podia continuar nestas molecagens. É como meu pai dizia: ter uma criança é a melhor desculpa para parar de agir como uma. Então, sosseguei. Voltei-me para os esportes. Em especial, squash. Jogava com conhecidos do clube. Como o sujeito competitivo que sou, fazia de tudo para marcar mais pontos. Desenvolvi uma técnica, que consistia em bater com o máximo de força o adversário contra a parede. O braço incha, sabe?,então, desequilibra o outro, que perde em mobilidade e agilidade. Fiquei bom nisso. Uma vez, o braço do outro parecia uma beterraba ao fim. Finalmente, um dia, veio este sujeito tomar satisfação. Não gostei do tom e acertei a cara dele com a raquete. Ele reagiu, meus seguranças interferiram, uma confusão dos diabos. Enfim, cansei e resolvi para partir para outra.

Em um almoço de negócios, um conhecido meu me contou de safaris privados. Um grupo importava animais e os soltava na mata para serem caçados por empresários ou quem pudesse pagar para participar. Me interessei, comprei um rifle XLF-9, uma beleza de arma, e paguei minha inscrição. Chegamos lá, tomamos café na manhã seguinte, vimos nosso alvo e fomos. Foi muito bom, vou te contar. A sensação de alerta, de espreitar, sentir o cheiro e a aproximação do alvo, era uma adrenalina só. E eu era bom nisso. Além de encontrar, frequentemente eu era o que matava. Retornei várias vezes. O problema é que era muito esporádico. É difícil encontrar alvos com o físico e o treinamento para sobreviver uma caçada. Não é como bater em bêbado. Se fosse, qual seria a graça? Então, eram animais que precisam estar em tal condição que estivessem aptos a correr, até se defender. Geralmente, ex-soldados que o grupo recrutava e soltava na mata para irmos atrás…

Como? Não, não, não caçávamos os soldados. Imagine. Isto seria assassinato. Não sou um assassino. Sou um cidadão de bem, e esta insinuação me ofende. E, olha, mesmo que os animais fossem gente de carne e osso, que caçássemos seres humanos, eles assinaram um contrato, e as famílias recebiam 10% do total, uma soma muito generosa. Mas não afirmo isso, apenas suponho.

Finalmente, precisei me afastar. A empresa passou por uma crise há alguns anos, alguém fez merda na Europa, as ações caíram, precisei vender umas subsidiárias, um inferno. Quando me restabeleci, descobri que o grupo que organizava as caçadas foi preso. Aparentemente, faziam parte de uma milícia, um desses esquadrões de extermínio. Então, acabaram as caçadas.

Nesse meio tempo, tive um enfarte. Fiquei internado, quase morri. O médico mandou eu maneirar um pouco, disse que escapei por pouco, etc. Fique feliz de não ter tido um AVC e não ficar babando no canto da boca como um amigo meu. Triste.

Sempre tive paixão por carros e corrida. Quando morei em São Paulo, até frequentei uma pista. Comprei um carrão, com parachoques salientes, o reforço especial duplo de aço cromado, veículo sensacional. Então, resolvi adotar um hobby mais calmo: dirigir à noite. Assim, chego em casa, janto, pego meu carro e dirijo. Num dia mais estressante, dirijo por mais tempo, sem pressa pra voltar. Ás vezes, me esqueço tanto do tempo, e gosto tanto de ouvir o ronco do motor que acelero. Nunca dirigi bêbado ou passei do limite de velocidade. Como disse, sou um cidadão de bem.

Hoje, por exemplo, estava tenso. Amanhã será um dia tenso na firma. Me distrai na direção e atingi aquela senhora. Sinto mal que tenha perdido as pernas, mas não foi minha culpa. Quanto aos outros atropelamentos que ocorrem nesta região, nada sei. O modelo do carro de cujas fotos me mostraram é parecido com o meu, sim. Mas não é, garanto. Além do mais, se eu saísse à noite para atropelar pedestres, não seria descoberto. Tenho pós nos Estados Unidos, sou empresário de uma firma responsável por centenas de pessoas. E, mais importante, sou um cidadão de bem. Logo, quanto vocês querem para me liberar aqui e a gente evitar a encheção de saco de um processo que não dará em nada? Mas falem logo, que amanhã terei um dia terrível na companhia.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas