Vamos conversar? [Elyandria Silva]

Posted on 20/09/2016

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Elyandria Silva*

Existem distâncias que são impercorríveis, a distância de silêncios é uma delas. É aquela em que a ausência de palavras é rainha soberana e nem que venha dar ordens de vez em quando cria um estigma permanente. Certa pessoa disse, o Dalai Lama ou algum poeta, escritor famoso, talvez, não sei: “Case com alguém que você goste de conversar. Ao envelhecerem suas aptidões de conversação serão tão importantes quanto qualquer outra.” Essas aptidões não dizem respeito a banalidades e sim àquele “papo bom”, frente a frente, olho no olho, pertinho, aquela conversa em que as horas tornam-se invisíveis, em que os assuntos se desdobram como tecido em metro e a sensação no fim é de coisa boa. As pessoas possuem reservatórios de conversas diferentes uma das outras. Enquanto algumas, geralmente mulheres, necessitam esvaziar diariamente seu estoque de blá-blá-blá, outros, passam muito bem vários dias sem trocar muitas palavras em seus palácios de silêncios. Sou da primeira turma, a que precisa esvaziar constantemente, são litros de fala, necessito de doses generosas de troca de frases, de parágrafos, de palavras. Tenho assunto para várias existências, tenho vontade de verbalizar, tenho sede de diálogos de qualidade, aqueles em que se aprende sobre a composição da vida, sobre os “eus” que nos sobrepõe ou nos esconde. Quando falo, começo a fazer, começo a sentir e, em algum momento, algo muda, se transforma, pode ser pouco, mas é importante, mutação das letras faladas. Algo como diz o poema Conversar de Octavio Paz “Em um poema leio:/ Conversar é divino./ Mas os deuses não falam: fazem, desfazem mundos/ enquanto os homens falam./ Os deuses, sem palavras, jogam jogos terríveis…Ao dizer o que dizem/os nomes que dizemos/ dizem tempo: nos dizem,/ somos nomes do tempo./ Conversar é humano.”

Existe um problema em tudo isso: em tempos modernos, além da conta, o mais humano dos atos se tornou tarefa difícil para muita gente – tem marido e mulher, filho e pai marcando hora para conversar – porque tem primeiro que se organizar, pensar, nem todo mundo está disposto, ficar quieto dá menos trabalho, silenciar em si é mais cômodo. Deus me livre dessa tristeza, o da quietude da boca, porque aqui, acolá, em qualquer momento, em qualquer dia, em qualquer sorriso, em qualquer choro, eu quero, sempre, aconteça o que acontecer, alguém para conversar. E desejo o mesmo para você, querido (a) leitor! Um dia, quem sabe, voltemos a conversar a respeito disso.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas