Seu Funéreo [Daniel Cariello]

Posted on 04/02/2016

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Daniel Cariello*

Carnaval? Nunca gostei! Cheio de gente chata pra caramba. Aquele povo sem noção, que fica sorrindo à toa, jogando confete, lançando serpentinas, sabe? Porque uma serpentina daquelas pode fazer mal, disso ninguém fala, né? Vai que bate no olho de um menino. O que que a gente faz? Quem é o culpado?

Aí esses chatos inventam de se fantasiar. Essa gente tem cocô na cabeça, né, só pode ser. O cidadão se veste de mulher! Coloca todos os acessórios, diadema, brincos, colar, top, meia-calça, saia e sapato, se maquia todo e vai pra rua! Se o sujeito ficasse na dele, não incomodasse ninguém, eu até aguentava, juro, aguentava mesmo. Mas aí ele inventa de se juntar a outros delinquentes que também se vestiram de mulher, de Zorro, de Elza, de Pikachu, de Batman, de bailarina, do diabo que o carregue e formam um bloco. O cordão dos idiotas. Saem em bando, azucrinando a vida de quem não tem nada a ver com pierrô e colombina e não faz ideia do que raios venha a ser uma cabrocha.

Pra piorar, porque pode piorar, acredite, pra piorar tem aquela zoeira musical, um bando de gente que acredita ter samba no pé, cada um tamborinando seu tamborim, se achando o novo Naná Vasconcelos, que é outro chato e ainda bem que só existe um. Uma batida no agogô dessa gente jovem reunida é uma marretada na minha cabeça. Por dentro.

Quando eles finalmente acertam dois compassos seguidos, surge o coro, porque a estupidez é coletiva, né? Os burros andam em manada e no carnaval também relincham em sincronia. E ficam zurrando aquelas músicas velhas, aquela goteira sem fim. As mesmas da juventude da minha avó, que aconteceu há tanto tempo que a rainha da bateria era a Dercy Gonçalves. Ala lá ô, mas que calor, olha a cabeleira do Zézé, será que ele gosta de mim, hoje os dois mascarados procuram mamãe eu quero mamar, mande água pra iá iá. Sério, olha o nível da coisa. Tão ruim que nem o Lulu Santos, nem ele!, teve coragem de fazer pot-pourri disso.

E esse bando de animais sai desfilando pelas ruas, atrapalhando o trânsito, causando transtorno em quem precisa ir à padaria, à farmácia, ao banco, essas coisas do dia-a-dia que não dá pra parar só porque a Turma do Chaves está colocando o bloco na rua.

Carnaval é essa falta de respeito com o cidadão. Não sou obrigado a aguentar alegria e barulho, atrapalham a televisão. Outro dia tinha uns jovens ensaiando aqui embaixo e eu não consegui escutar a voz da menina no concurso de cantores pirralhos. A Ivete virou pra ela e eu fiquei sem saber por quê. E agora, quem vai pagar por isso, hein?


Essa crônica foi inspirada na marchinha Seu Funéreo, composta por Pedro Cariello em protesto contra a intransigente lei do silêncio que vem sufocando as nossas cidades até no carnaval.  Você pode (e deve) escutá-la aqui:

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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