GPS e batom [Rubem Penz]

Posted on 05/02/2016

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Rubem Penz*

Reparou que a voz a indicar os caminhos nos aparelhos de GPS é quase sempre feminina? Quer dizer, há uma mulher dizendo a quem está ao volante para onde deve seguir. Uma das razões para que seja assim passa pela suavidade – a tonalidade das mulheres é mais agradável. Outra, talvez mais importante, é que desde a infância costumamos ser dirigidos por mulheres. E, pensando bem, vozes masculinas no GPS podem gerar muitos problemas.

Por exemplo, uma moça independente, solteiríssima, cabeça feita, senhora de si desde os bancos universitários coloca uma voz de homem no GPS do carro. Ele, imediatamente, começa a ditar: vire ali, volte acolá, apanhe o caminho da esquerda. O primeiro trajeto é divertido, quase sexy. No terceiro dia, tolerável. Porém, não dou duas semanas para ela trocar por uma voz de mulher só para livrar-se daquele “homem insuportável que pensa que pode mandar nela só porque acha que conhece o caminho”.

Para quem considera o exemplo tendencioso, vamos dar um giro de cento e oitenta graus na motorista: ela agora é uma mulher casada e mãe em tempo integral. Quando o GPS masculino passa a distribuir suas ordens, algo no subconsciente começa a perturbar – já não basta o marido para regular sua vida, agora vem outro homem para mandar nela dentro do carro? Como é mais complicado dissolver o casal, dará um jeito de alterar a voz do GPS.

Mas, digamos que o fabricante do GPS identifique o aparente autoritarismo chauvinista embutido no tom mais grave como raiz do problema, e resolva dotar o sistema com um locutor educado, delicado e carinhoso. Algo que beire a afetação: “Meu anjo, quem sabe a gente pega o primeiro desvio à direita? Pode ser, lindinha?”. Desastre. Não faltaria feminista para considerar ironia, deboche ou machismo benevolente.

E voz masculina no GPS desagradaria rapazes? Lógico! Um homem, por sua natureza competitiva, desacataria os comandos de outro homem só para provar que conhece uma rota alternativa mais curta, menos movimentada, duas vezes mais rápida. Melhor: deixaria o GPS desligado sempre que soubesse mais ou menos onde fica o endereço. Isto é, absolutamente o tempo inteiro. Ou alguém já viu um homem em sã consciência assumir que está perdido?

Por fim, no caso de o GPS com voz masculina ditar ordens em um carro com um casal (homem ao volante), imagino briga na certa. Reação natural de macho alfa:

– Benhê, diminui a velocidade que ele disse para entrarmos na próxima avenida.

– Se acha que ele sabe mais, casa com ele, então…

Fique claro, então: voz de GPS precisa ser feminina. Com ela, as mulheres compreendem as indicações de rota como sendo “dicas” da amiga eletrônica. Para os homens, são “pedidos” de uma mulher digital muito simpática que, inclusive, parece estar dando mole (logo, não custa atender). Tudo na mesma lógica do casamento, a união entre uma pessoa que manda e um marido. Quer tirar a prova? Pergunte para quem está de batom.

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro o Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas