Culto ao tomate [Domingos Pellegrini]

Posted on 14/12/2015

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(Imagem: Aridiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

Tomate que avermelha na horta, és sol em miniatura a prometer delícias.

Se és legume ou fruta, que importa? Discussão idiota. Nossos netos te comem cru, como fruta, te comem na salada como legume, e nas massas em forma de molho, como diz Pietro: – Massa gostosa é vermelha!

Importante é que serves ao sanduíche, à pizza, à macarronada, à lasanha, com a mesma vermelhidão cremosa ou pastosa, como na salada és crocante, se verdolengo, ou macio se madurinho. E pensar que deixei de te comer durante ano, achando que elevaria meu ácido úrico! Mas, como aconteceu com os ovos, você foi reabilitado: não só não tem pouco ácido úrico, como combate câncer da próstata! Santo Tomate!

Antes, já te rejeitara de bobeira. Quando fiz macrobiótica (note que ex-macrobióticos não falam “curti” ou “adotei” mas “fiz” macrobiótica, como se fosse doloroso dever), bem, deixei de te comer, porque eras vermelho como a beterraba, a melancia, o rabanete, por isso demasiado “ying”… Então amigo também descendente de italianos verberou:

 – O que?! Por causa duma dieta oriental você deixou de comer nossos tomates? Se houver outra vida, teus antepassados já estão todos arrancando o cinto pra te bater quando você encontrar lá com eles!

E voltei com prazer e alívio a comer frutos e legumes de todas as cores, confiante na dieta de Jesus: “mal é o que sai da boca”.

Lembrança tomatesca: eu fazia sanduíche quente com tomate em rodelas, e, nas mordidas, as rodelas viravam tiras a escapulir do pão ou da boca. O neto Caetano matou a charada: – Porque, vô, você não corta o tomate em pedacinhos?

Surgiu então o Sanduíche Caetano: numa fatia do pão, passo requeijão cremoso ou azeite ou pesto, na outra fatia pasta pomodoro, ou seja, creme de tomate. Entre as fatias, tomate cortadinho com azeitonas e queijo. Esquento na sanduicheira, e quem toma café da manhã na Chácara Chão sabe a delícia que é.

E o macarrão da Dalva? Ela primeiro passa os tomates em panela com água quente, para tirar pele e sementes, depois ferve em fogo brando com cebola cortadinha, durante uns quinze minutos. Finalmente, salga e coloca massa de tomate. Quando despeja esse molho no macarrão grano duro,  acrescenta temperos verdes e um pouco de manteiga. Simples, rápido e gostoso que só.

Além dessas alegrias, Tomate, te devemos as lições contra preconceitos e pela evolução. Foste frutinha silvestre usada para molho apimentado lá pelos maias, onde hoje é o México e América Central.  Mas depois foste proibido pelos europeus, que te viam como alimento venenoso. Mas foste reabilitado, melhorado geneticamente, adotado universalmente, pioneiro em inclusão culinária, abrindo caminho nos cardápios para tantos outros legumes, embora sejas fruta. Sem discriminação, estás no prato dos ricos e nas mãos dos pobres, justiceiro social.

Por isso, diante desse mundo sempre em mudanças, te como orando: Deus me leve, o tempo me mate, mas preservem o Tomate!

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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