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A morte e a vida pela janela [Cássio Zanatta]

outubro 9, 2017

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Hoje eu não queria escrever. No entanto, talvez por isso mesmo seja preciso escrever. Ou gritar. Ou não gritar, pelo contrário: calar-se num canto. Ou dividir um vinho só falando com os olhos e brindando com a mão esquerda, já que a direita está muito ocupada, tocando com calma a mão querida. Houve que, voltando […]

A morte do garrote [Cássio Zanatta]

setembro 25, 2017

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De quem foi a ideia, afinal, de quem? Não pergunto por aquela de abater o garrote para fornecer carne a mais de trinta pessoas durante as férias na fazenda. Isso faz sentido. Quero saber de quem foi a ideia de levar as crianças para apreciar o espetáculo. Se a intenção era apresentar a elas o […]

Herança [Cássio Zanatta]

setembro 11, 2017

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Herdei da vida uma alma leve num corpo tosco. Corpo que chuta o pé da cama, que sabe tossir, produzir lágrimas, sêmen e pelos, e tem duas pernas que sofrem para suportar o peso, quanto mais uma alma. Por isso ela derrete fácil, paira à toa, ao invés deste tronco difícil de vergar. Minha terra […]

Pedras que rolam [Cássio Zanatta]

agosto 28, 2017

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Há milhares de pedras na beira da estrada. Por algum motivo (o vento é que não foi), uma mais destemida deixou o acostamento, invadiu o asfalto e foi parar no meio da pista, onde ficou no aguardo. Daí que cruzamos com um carro em sentido contrário e, na passagem, um dos pneus atirou a pedra. […]

Fazendo espuma [Cássio Zanatta]

agosto 14, 2017

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Então me peguei pensando na palavra espuma. Veja a que ponto leva a falta do que fazer: o sujeito fica olhando para as nuvens, jogando tempo fora e começa a matutar sobre uma palavra. Mas de fato eu pensava na beleza da palavra espuma. Mestre Aurélio a define no seu dicionário como “minúsculas bolhas que […]

A que podia ter sido [Cássio Zanatta]

julho 31, 2017

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Podia ter sido a de um surfista. Cheia de ventos e sal nos cabelos, que desprezariam o pente. De quem entendesse a sequência das ondas e só saísse do mar com os músculos cansados. Ser forte e sem barriga, já imaginou? Daí a goiabada, o vinho e a rede podiam ser à vontade. Mas, se […]

A mulher do tempo [Cássio Zanatta]

julho 17, 2017

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Você tem razão em reclamar dessa garoinha insistente, do toró que cai bem na hora do rush e complica sua volta para casa, ou desse sol que sai com tudo quando você está de casaco. Só está reclamando para a pessoa errada. A culpa não é de São Pedro, nem do homem do tempo, muito […]

O dia em que ninguém morreu [Cássio Zanatta]

julho 3, 2017

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Houve um terremoto no Nepal, um tiroteio em Bogotá, uma mina que se supunha desativada explodiu num subúrbio de Bremen e até um cardíaco ganhou cinquenta milhões na loteria, mas foi inútil. Domingo, feita a contabilidade, ninguém morreu no mundo. O padre foi chamado às pressas para uma extrema-unção, mas chegando à casa do moribundo, […]

Convocação aos devedores de boa vontade [Cássio Zanatta]

junho 19, 2017

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Essa é uma convocação, uma convocação mundial. Não precisa estar com o passaporte em dia, nem vestir verde e amarelo se for brasileiro, nem azul e vermelho, se francês, inglês ou americano. Não precisa jurar bandeira nem contribuir para o Exército da Salvação. É uma convocação para que todos os parentes, amigos e antigos namorados […]

Sala de espera [Cássio Zanatta]

junho 5, 2017

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Talvez seja o único lugar no mundo onde luz faz barulho. E esse arrepio por dentro, vem do chão sem carpete ou da sem-gracice da decoração? Na parede há uma foto de Paris, talvez para dar aquela esperança ao cidadão de rever Paris. Mesmo que esteja desbotada e não alcance esse objetivo, bem sempre faz. […]