A persistência é uma virtude literária. Há quem precise de várias décadas para se provar um mau poeta.

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Em alguns raros momentos de bom humor, admito que não deveria me preocupar com a poesia; ela é que, se zelasse pelo seu nome, deveria se preocupar comigo.

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Se você não chegou àquele ponto de se considerar um poeta fracassado, talvez seja o caso de perseverar um pouco mais.

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Considerar a literatura uma espécie de missão talvez não seja o ideal, mas, se for o seu caso, não se poupe.

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Mexes com a minha ternura. Quando ela se vai, chamada por outros acenos, tu vais buscá-la e a repões no caminho dos teus braços.

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Ontem me afligia a qualidade, Hoje, me atormenta a quantidade. Ontem eu escrevia mal. Hoje eu mal escrevo.

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Impossível não imaginar que Mario Quintana tenha sido um menino bom de assobio.

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Tantas vezes foi o jarro à fonte que aprendeu o caminho e agora já vai sozinho.

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Na loja de artigos poéticos, uma liquidação de réguas para medir alexandrinos.

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O gramático sovina conseguiu desconto no tapetinho de bem-vindo porque lhe faltava o hífen.

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Assim como no jogo e no amor, também na poesia ocorre e chamada sorte de principiante.

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Os poetas que mais se frustram são aqueles que insistem em ver na poesia não uma atividade artística, mas uma profissão.

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Destituído da glória artística e descrente de qualquer outra, o velho poeta conserva poucos traços de grandeza. Um deles é considerar o sol seu parente. Toda manhã ainda o cumprimenta: bom dia, Helinho.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.