Notas falsas 4 – Política [Rubem Penz]

Posted on 13/09/2019

4



Vivemos um tempo de versões e contraversões – ou seriam contravenções? – na nobre arte da política. Melhor dizendo, na pobre arte da política… Ao mesmo tempo cremos e duvidamos de tudo; simultaneamente duvidamos e cremos em nada. Só pode ser um truque para dissimular o que, se explícito, ruborizaria cafetões e faria bispos perderem a fé. A verdade se tornou um conceito complexo, como ficará difícil de notar a seguir, em novas notas falsas:

Urna – misteriosa e sublime esposa de Átila, o rei dos Urnos. Diz-se que da Urna saem verdades cruéis e consequências imprevisíveis. Houve um tempo em que uma das mais baixas ofensas era chamar alguém de Filho da Urna. Sem que o temível Átila ouvisse, é claro.

Voto – espécie de jogo de azar no qual a banca ganha sempre. Quando praticado em escrutínios transparentes, costumam ser sonoros, ganhando o nome de Voz e Voto. Ouço por aí ser o que temos.

Voto secreto – o mesmo jogo. Porém, quando praticado no Parlamento, ganha consequências “in”: indecentes, incríveis, inclementes, inomináveis.

Voto universal – igual, e com as mesmas características dos bingos de paróquia: todo mundo pode jogar, seja homem, mulher, novo, velho, alto, baixo, doutor, analfabeto. A banca segue ganhando – isso não muda nunca.

Prefeito – aglutinação de pré e feito. Isto é, nada de novo, mais do mesmo. Pessoa escolhida ao prometer mudanças e, depois, seguirá movida a repetir fórmulas. Também pode ser chamado de Alcaide, que vem do árabe (o juiz), sem perder o significado da alcunha, que vem do árabe (a… depreenda você).

Vereador – aglutinação de ver-e-a-dor. Ou seja, uma pessoa para fiscalizar os atos do prefeito e garantir que doa no bolso do cidadão. “Cumpli” sua missão no espaço urbano através da cumpli-cidade.

Deputado – não iremos aqui decupar a palavra para não ferir leitores mais pudicos. Digamos que sejam pessoas escolhidas para enganar (deturpados), constranger (debochados), fazer m… (defecados), entre outras coisas.

Sufrágio – espécie de VAR no jogo do Voto cuja incumbência é garantir que a banca ganhe sempre. Conta aquilo (e com aquilo) que o povo depositou.

Horário Eleitoral Gratuito – programação de mídia com uma relação interessantíssima de custo e benefício: custa para uns, beneficia outros.

Brasília – Disneylândia tupiniquim com seus palácios, sua corte, seus personagens bizarros, seus enredos fantásticos. Cada uma das atrações existe para provocar ora terror, ora deslumbramento, ora fantasia. No fundo, todo mundo sabe que lá tudo é de mentira.

__________

Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

Marcado:
Posted in: Crônicas