O prodígio da literatura e mais alguns [Raul Drewnick]

Posted on 13/03/2016

3



Raul Drewnick* 

Que um homem consiga destruir-se com o álcool, o jogo e as mulheres é compreensível. Que atinja o mesmo com a prosaica literatura é uma façanha.

***

Aos poetas deveria ser dado como prêmio, na hora da morte, não estrebucharem, não estertorarem, não babarem, e terem no rosto uma expressão como a de um recém-nascido a quem a mãe indica um ponto no céu e lhe diz sol.

***

Sempre que o amor atingisse o auge, o coração deveria explodir e esparramar pelo céu mil duzentos e cinquenta balões coloridos, se não mais.

***

Se souber falar do amor, o poeta nunca ficará sem trabalho.

***

Já era muito tarde quando descobri que o amor não é um negócio para amadores.

***

A vida é uma questão de sorte; a morte, uma questão de tempo.

***

Dedicar a vida à literatura é um modo tão eficaz de morrer quanto qualquer outro.

***

Venho comprovando que a velhice é mesmo um estado de espírito – o mais desagradável de todos – e que piora dia a dia.

***

Que ainda se morra por amor é uma prova de que à morte pouco importam as modernidades.

***

No sonho ele a vê mastigando vagarosamente um colar de pérolas e anseia para que ela o olhe e lhe diga: o próximo é você.

***

Há noites em que ela usa o mindinho. Fecha os olhos e imagina que uma passarinha escolhe nela fios para o ninho e que, depois de colhê-los, começa a bicar educadamente os grãos de milho esparramados na sua coxa.

***

Na mão dela, quando ao chegar a beijou, ele sentiu cheiro de maresia. Presunçoso, imaginou que ela lhe tivesse prestado uma homenagem enquanto o esperava no sofá.

***

Na noite em que sonhou com ela, acordou com a boca seca de sede e a frustração de o sonho haver terminado antes que ela tirasse o sutiã.

***

Ter vivido tanto foi o mais longo dos meus descuidos.

***

Estratagema é o tipo de recurso que usaríamos numa conquista amorosa, se não soasse tão pernóstico.

***

Gostaria de tê-la visto nua ao menos uma vez. Tem certeza de que acharia perfeito seu corpo, assim como achou dócil sua alma cruel.

***

Quando for escolher um sofá, não se esqueça de levar o gato.

__________

Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas