O sabiá e o poeta [Domingos Pellegrini]

Posted on 23/11/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

Se há alguém que sabe assobiar, é o sabiá. Tem um aqui na chácara cantando cedinho, de tarde e noitinha. Canta tanto que espanta, a gente se pergunta como pode. É a energia do amor, diz Dalva, ele canta para encantar a sabiá.

O cantor apaixonado lembra o poeta Gonçalves Dias da Canção do Exílio: “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”…

Ele escreveu isso na Europa, onde tentava melhorar da tuberbulose, mas piorou. E lá, doente, encontrou ao acaso sua paixão Ana Amélia, que fez não o reconhecer.

É que ele tinha sido rapazola pobre e órfão que, conforme Stevie Wonder, podia ser pior, podia ser negro. E era mesmo “pior”: mestiço de negro e índia, somava dois preconceitos. Mas era também tão talentoso que foi estudar Direito em Portugal custeado por amigos, principalmente Teófilo Leal.

Voltando ao Brasil advogado e já com renome literário, conheceu em Fortaleza a irmã do amigo, linda mocinha a quem dedicou poemas mas esqueceu, indo morar no Rio de Janeiro. Mas o destino não esqueceu: voltando ao Maranhão anos depois, ele se apaixona pela bela mulher, sabendo que a família não aprovaria a união. Ela sugere ser raptada, mas ele prefere respeitar a família benfeitora, e  novamente volta ao Rio sozinho.

Adoecendo, volta à Europa, já famoso poeta, com casamento desfeito – como ela, quando se reencontram em Paris e ela magoada o desconhece. Ele então escreve o doloroso poema Mais Uma Vez, Adeus, com versos como estes: “Mas que tens? Não me conheces? / De mim afastas teu rosto? / Pois tanto pode o desgosto / transformar o rosto meu? / Sei a aflição quanto pode, / sei quanto ela desfigura, /  e eu não vivi na ventura… / Olha-me bem, que sou eu!”

Volta ao Brasil muito doente, em navio veleiro que naufraga no litoral do Maranhão, e o poeta é o único que não se salva, esquecido no leito do camarote, já diante da praia com palmeiras e sabiás como no seu poema: “Não permita Deus que eu morra / sem que volte para lá. / Sem que ainda aviste as palmeiras / onde canta o sabiá!”

Sua morte, aos 41 anos, causou tanta comoção que seus versos foram inseridos no Hino Nacional: “Nossos bosques tem mais vida / nossa vida mais amores”.

Rapazola, fui apaixonado por seus poemas, que sabia de cor, ou seja, guardados no coração. E hoje, pensando em sua morte tão precoce e trágica, por estar vivo dou graças a Deus sempre que canta nosso sabiá.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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