Frases atiradas para o alto [Raul Drewnick]

Posted on 16/08/2015

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Raul Drewnick*

Cordeiro, não comas tanto. Enquanto comes, deslumbrado pela cintilação do sol na relva, dentro da casa fulgura, na cozinha, a faca que um dia procurará a maciez do teu pescoço.

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Por engano ou misericórdia do entregador, o defunto da sala C recebeu enfim uma coroa, que não fez falta nenhuma ao defunto da sala D, onde o doentio olor das flores havia feito desmaiar minutos antes uma grávida.

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Olhou para o médico, para as chapas na mão dele, e teve pena porque, por sua juventude, talvez fosse a primeira vez que lhe cabia dar a alguém uma notícia como aquela.

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Rejeitado, o poeta pensa em como antigamente era mais fácil a vida dos apaixonados. Uma de suas tias, que teve vários pretendentes, casou-se com aquele que a chamou em uma cartinha de “horizonte de minha alma”.

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Se anacoluto não é palavrão, não é por falta de esforço.

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Um escritor deveria usar metáforas não com a intenção de exprimir o belo, mas de melhorá-lo.

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Em Dalton Trevisan, o fetiche sexual pode estar num dente de ouro, num olhar vesgo ou na marca deixada no rosto por um cravo mal espremido.

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O amor é aquela estupidez pela qual se sacrificam família, pátria, religião, honra e alma. O amor é a estupidez que vale todas as estupidezes. O amor é o rei dos reis.

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Sempre fui tentado a tratar a literatura com todo o amor e a máxima intensidade. Nunca fui correspondido.

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Ter um gato no colo é desmentir, por um momento, a ideia de que a beleza é inapreensível.

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Se um poeta não fala de amor, está traindo seu ofício.

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Muitas vezes, o que se chama de estilo não passa de um bisonho conjunto de maneirismos.

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Escrever bem é comumente o que de pior um escritor pode fazer.

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O amor deveria ser sempre a coisa mais pura, ingênua e pueril de que dois adultos tratassem.

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Ele a beijou bem ali onde, se for bem beijada, a mulher não nega nada, nem a um rei nem a um gari.

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Há milênios a poesia se esforça para fingir que tem outros assuntos além do amor.

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Não sei quando pronunciei pela primeira vez a palavra amor. Faltará isso em minha biografia: o dia em que pela primeira vez disse o nome do meu assassino.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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