Mandioquilma [Domingos Pellegrini]

Posted on 03/08/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

PresidentA Dilma andou elogiando a mandioca, e teve gente que estranhou, gente chiou, outros acharam que a mandioca não merece elogio de quem anda tão desaprovada. Mas aqui estou eu, presidentA, acorrendo em teu socorro como Quixote sem Sancho nem Rocinonte, mas com um monte de alegações em teu favor.

Primeiro, é um alívio ver que a presidentA encontra, entre tantos ministros e políticos da base “aliada”, algo elogiável.

Segundo, é alvissareiro saber que alguém no poder consegue ver  os méritos dessa raiz que está nas nossas origens nutricionais e culturais. Nunca tantos deveram tanto a tão poucos, disse Churchill sobre os pilotos que, surrando a aviação alemã, evitaram a invasão da Inglaterra, que seria seguida pela invasão da América do Sul e, daí, só Deus sabe como ficaria o mundo.

Aqui entre nós, nunca tantos deveram tanto à mandioca. A batata também nasceu entre os índios daqui mas, levada para a Europa, voltou com o nome de batata-inglesa e pode ser comida frita, assada e cozida. Já a mandioca, ah, a mandioca também e muito mais: como farinha, faz a base da merenda nordestina, transforma-se em coxinha, é indispensável na feijoada e convive com o arroz-feijão cotidiano dos brasileiros de Norte a Sul.

Quem nunca comeu vaca-atolada não sabe o que é combinação perfeita entre a mais dura das carnes, a costela, cozida ao ponto de quase desmanchar, e a mais cremosa das raízes.

Vó Tiana cozinhava mandioca no meio da tarde, botava fumegante no prato, despejava melaço por cima e ficava vento o neto se lambuzar. Depois ia para o quintal com uma faquinha, cortava pontas das ramas das aboboreiras, fazia sopa de mandioca com cambuquira e pescoço e sambiquira de galinha. Podem me prender, me bater e me torturar, PresidentA, mas continuarei a dizer que é a sopa mais gostosa do mundo.

Nonna Paulina fritava mandioca até ficar dourada e crocante, o neto comia com arroz-feijão dispensando tudo mais.

E purê de mandioca então? É só amassar com o garfo na panela, misturar leite e queijo ralado, pronto, o purê de batata perde feio.

E existe café da tarde mais brasileiro e gostoso que com bolo de mandioca?

PresidentA,  se pouco haverá para imortalizar teu mandato, com certeza teu elogio à mandioca é digno de uma femina-sapiens (permita-me a correção, presidentA, mas “mulher-sapiens”, como a senhora falou, não é correto pois mistura Português com Latim, como tantas misturas do seu governo: economia com política, dinheiro público com privado, administração com desorganização, assistência social com eleição etceteretal).

Se vier a Londrina, venha comer bolo de mandioca aqui na chácara, com café de coador e passarinhos no quintal. E, se  um dia criarem uma Comenda da Mandioca, que a senhora seja a primeira a ser homenageada. Como disso o poeta, de tudo fica um pouco e, se de teu governo ficar o elogio da mandioca, já será muito.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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