Nelson Rodrigues

Terreno baldio 

Ah, como é falsa a entrevista verdadeira! Não sei se me entendem. Eis o que eu queria dizer: — trabalho em jornal desde os treze anos e tenho 55 anos. Façam as contas. São 42 anos. Depois de 42 anos de redação, o sujeito acumulou uma experiência em nada inferior às obras completas de William Shakespeare.Posso ir à boca de cena, alçar a fronte e anunciar para a platéia: — “Eu vi tudo e sei tudo”. Não vejam imodéstia nas minhas palavras. Qualquer repórter de polícia, em fim de carreira, terá a mesmíssima vidência shakespeariana. O mérito não é  nosso, mas estritamente profissional. E, depois de 42 anos de  vida jornalística, posso repetir: — nada mais cínico, nada mais apócrifo do que a entrevista verdadeira.

Não me esquecerei nunca do meu primeiro entrevistado. Se não me engano, era o diretor da Casa da Moeda (ou seria da Imprensa Nacional?). Mas não importam os títulos do homem, nem suas funções. O entrevistado é sempre o mesmo, variando apenas de terno e de feitio de nariz. No mais, há uma semelhança espantosa. Nem importa o assunto. Seja batalha de confete, ou Hiroshima, um cano furado ou os Direitos do Homem. O que vale é o cinismo gigantesco. O sujeito não diz uma palavra do que pensa, ou sente. E o pior é o gesto, é a ênfase, é a inflexão. O diretor da Casa da Moeda, que também podia ser da Imprensa Nacional, recebeu-me no seu gabinete. Falou uma hora, ou mais. Hora e meia. Mas fosse um Bismarck e daria no mesmo. Ele se perfilava para falar, como se a sua palavra fosse o próprio Hino Nacional.

Fiz outras entrevistas, centenas, dezenas de entrevistas. E todas me deixaram a mesma sensação de cinismo. No fim de alguns anos, eis a minha certeza definitiva, inapelável: — ninguém devia ser entrevistado, nem os santos. Até que, um dia, na crônica, ocorreume a idéia das “entrevistas imaginárias”. Aí estava a única maneira de arrancar do entrevistado as verdades que ele não diria ao padre, ao psicanalista, nem ao médium, depois de morto. Fascinou-me a “entrevista imaginária”. Precisava, porém, arranjar-lhe uma paisagem. Não podia ser um gabinete, nem uma sala. Lembrei-me, então, do terreno baldio. Eu e o entrevistado e, no máximo, uma cabra vadia. Além do valor plástico da figura, a cabra não trai. Realmente, nunca se viu uma cabra sair por aí fazendo inconfidências. Restava o problema do horário. Podia ser meia-noite, hora convencional, mas altamente sugestiva. Nada do que se diz, ou faz, à meia-noite, é intranscendente. Boa hora para matar, para morrer ou, simplesmente, para dizer as verdades atrozes.

Fiz “entrevistas imaginárias” com jogadores, dirigentes de futebol, literatos. Ainda anteontem, o Antonio Callado foi meu convidado no terreno baldio. Mas eu sentia, de maneira obscura, quase dolorosa, que faltava alguém no capinzal. “Mas quem?” — eis o que me perguntava. — “Quem?” E, súbito, um nome ilumina minhas trevas interiores: — “D. Hélder!”. De todos os vivos ou mortos do Brasil, era ele o mais urgente, o mais premente. E, de mais a mais, uma batina é sempre paisagística. Ontem, finalmente, houve, no terreno baldio, a “entrevista imaginária”. À meia-noite, em ponto, chegava d. Hélder. Lá estava também a cabra, comendo capim, ou, melhor dizendo,  comendo a paisagem. À luz do archote, começamos a conversar.  Primeira pergunta: — “O senhor fuma, d. Hélder?”. Resposta: — “A entrevista é imaginária?”. Acho graça: — “Ou o senhor duvida?”. E d. Hélder: — “Se é imaginária, fumo. Qual é o teu?”. Digo: — “Caporal Amarelinho”. Cuspiu por cima do ombro: — “Deus me livre! Matarato!”. Faço a pergunta: — “Que notícias o senhor me dá da  vida eterna?”. Riu: — “Rapaz! Não sou leitor do  Tico-Tico  nem do  Gibi. Está-me achando com cara de vida eterna?”. No meu espanto, indago: — “E o senhor acredita em Deus? Pelo menos em Deus?”. O arcebispo abre os braços, num escândalo profundo: — “Nem o Alceu acredita em Deus. Traz o Alceu para o terreno baldio e pergunta”. Ele continuava: — “O Alceu acha graça na vida eterna. A vida eterna nunca encheu a barriga de ninguém”.

D. Hélder falava e eu ia taquigrafando tudo. Aquele que estava diante de mim nada tinha a ver com o suave, o melífluo, o pastoral d. Hélder da vida real. E disse mais: — “Vocês falam de santos, de anjos, de profetas, e outros bichos. Mas vem cá. E a fome do Nordeste? Vamos ao concreto. E a fome do Nordeste?”. Não me ocorreu nenhum outro comentário senão este:  — “A fome do Nordeste é a fome do Nordeste”. D. Hélder estende a mão: — “Dá um dos teus mata-ratos”. Acendi-lhe o cigarro.  D. Hélder não pára mais: — “Diz cá uma coisa, meu bom Nelson. Você já viu um santo, uma santa? Por exemplo: — Joana D’Arc. Já viu a nossa querida Joana D’Arc baixar no Nordeste e dar uma bolacha a uma criança? As crianças lá morrem como ratas. E o que é que esse tal de são Francisco de Assis fez pelo Nordeste? Conversa, conversa!”.

Lanço outra isca: — “É verdade que o senhor vai para o Amazonas?”. Riu: — “Onde fica esse troço? Ó rapaz!  Ainda nunca desconfiaste que a fome do Nordeste é o meu ganha-pão? E o Amazonas é terra de jacaré. Tenho cara de jacaré?”. Concordo em que ele não tem nenhuma semelhança física com um jacaré. Indago: — “E o comunismo?”. D. Hélder conta: — “Quando estive nos Estados Unidos, bolei um cartaz assim: O arcebispo vermelho! Era eu o arcebispo vermelho, eu!”. Insinuei a dúvida: — “Mas esse negócio de comunismo é meio perigoso”. Nova risada: — “Perigosa é a direita. A direita é que não dá mais nada. O  arcebispo vermelho  fez um sucesso tremendo nos Estados Unidos”.

Pede outro cigarro. Fez novas confidências: — “Sou homem da minha época. Na Idade Média, eu era da vida eterna, do Sobrenatural. Fui um santo. É o que lhe digo: — cada época tem seus padrões. Benjamim Costallat, no seu tempo, era o Proust. O Charleston já foi a grande moda. Pelo amor de Deus, não me falem da vida eterna, que é mais antiga, mais obsoleta do que o primeiro espartilho de Sarah Bernhardt. Hoje, a moda não é mais Benjamim Costallat, nem o Charleston. Entende? É Guevara. O  santo é Guevara. E acompanho a moda”. Desfechei-lhe a pergunta final: — “E a Presidência  da República?”. D. Hélder respira fundo: — “Depende. A fome do Nordeste é o barril de pólvora balcânico. Fome, mortalidade infantil, muita miséria e cada vez maior. Chegarei lá”. Era o fim da “entrevista imaginária”. Despedi-me assim: — “Até logo, presidente”. Respondeu: — “Obrigado, irmão”. E antes de partir fez a última declaração: — “Olha, as donas de casa têm uma simpatia para curar dor de barriguinha em criança. Acredito mais na simpatia do que na ressurreição de Lázaro”. Disse isso e sumiu na treva”.

[14/3/1968]

A Vaca Premiada

Não há ser mais pungente e, repito, não há ser mais plangente  do que o brasileiro premiado. O inglês, não, nem o francês. Um ou  outro recebe qualquer prêmio com modéstia e tédio. Quando deram a  Churchill o Nobel de literatura, ele nem foi lá. Mandou a mulher e  continuou em Londres, tomando o seu uísque e mamando o seu  charuto. O francês ou o alemão também reagiria com o mesmo  superior descaro.

E que faria o brasileiro? Sim, o brasileiro que, de repente,  recebesse um telegrama assim: — “Ganhaste o prêmio Nobel.  Gustavo da Suécia”. Pergunto se algum brasileiro, vivo ou morto,  teria a suprema desfaçatez de mandar um representante, como fez o  Churchill? Por exemplo: — o meu amigo Otto Lara Resende. Se a  Academia Sueca, por unanimidade ou  sem unanimidade, por simples maioria, o preferisse.

Semelhante hipótese, que arrisquei ao acaso, já me fascina. O  Otto, prêmio Nobel. Que faria ele? Ou que faria o Jorge Amado? Ou o  Érico Veríssimo? Eis o que eu queria dizer: — qualquer um de nós
iria, a nado, buscar o cheque e a medalha. Nem se pense que  faríamos tal esforço natatório por imodéstia. Pelo contrário. Nenhuma imodéstia e só humildade.

A nossa modéstia começa nas vacas. Quando era garoto, fui, certa vez, a uma exposição de gado. E o júri, depois de não sei  quantas dúvidas atrozes, chegou a uma conclusão. Vi, transido,  quando colocaram no pescoço da vaca a fitinha e a medalha. Claro  que a criança tem uma desvairada imaginação óptica. Há coisas que  só a criança enxerga. Mas quis-me parecer que o animal teve uma euforia pânica e pingou várias lágrimas da gratidão brasileira e  selvagem.

Cabe então a pergunta: — e por que até as vacas brasileiras reagem assim? O mistério me parece bem transparente. Cada um de  nós carrega um potencial de santas humilhações hereditárias. Cada
geração transmite à seguinte todas as suas frustrações e misérias.  No fim de certo tempo, o brasileiro tornou-se um Narciso às avessas,  que cospe na própria imagem. Eis a verdade: — não encontramos  pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima.

Se não me entenderam, paciência. E tudo nos assombra. Um  simples “bom-dia” já nos gratifica. Nunca me esqueço de minha  iniciação jornalística. Trabalhei num jornal que não pagava. Mas o
diretor, um escroque perfumadíssimo e, insisto, mais cheiroso do  que uma cocote, era o gênio do cumprimento. Não passava por um funcionário sem lhe apertar a mão, e sem lhe sorrir, e sem lhe piscar  o olho.

E o cumprimento do chefe era, para o repórter ou para o  faxineiro, a própria remuneração. Fiz as divagações acima porque  assisti, no último sábado, à entrega dos prêmios do Museu da  Imagem e do Som. A cerimônia ia ser televisada. Disse de mim para  mim: — “Vamos ver se o brasileiro mudou”.

Fiz, preliminarmente, uma breve autocrítica. Eis o que me  perguntei: — “Será que estou frustrado, ressentido, humilhado, de  não ser um deles?”. Há vinte anos, quando comecei minha carreira,  queria ter o meu nome no jornal de qualquer maneira e a qualquer  preço. Ah, quantas vezes escrevi sobre mim mesmo. Assinava com  um nome inventado e mandava publicar. E, depois, vinha perguntar  cá fora: — “Conhece esse sujeito? Escreveu sobre mim. Não sei quem  é”. Pois bem: — e comecei a entrar em todos os concursos de peças,  de reportagens, de contos, crônicas, o diabo. Todo mundo era  premiado, menos eu. No primeiro ano, segundo, terceiro, eu  estrebuchava de humilhação. Por fim, veio um doce e compassivo fatalismo. Repito: — “não ser premiado” é o meu hábito de vinte e tantos anos.

(Minto. Outro dia, recebi no Chacrinha o prêmio de melhor cronista esportivo de jornal. E a verdade é que reagi como brasileiro.  Escolhi o meu melhor terno, a minha melhor gravata, o meu melhor  sapato. Meia hora antes estava na televisão. Lá encontrei o João  Saldanha, também contemplado. Vagando pelos corredores da TV  Globo, à espera da nossa convocação, tínhamos, os dois, um ar indubitável de prêmio Nobel.)

Volto ao sábado. Sala Cecília Meireles. Como o governo da  Guanabara estava ligado aos prêmios, compareceu o governador Negrão de Lima. Ele, em pessoa, faria a entrega. E, para maior ênfase
do acontecimento, puseram lá uma banda de música. Um dos  premiados era Oscar Niemeyer. Outro: Glauber Rocha; outro ainda:  Pelé.

Dirá alguém que eram prêmios modestos. Não importa. A vaca  já citada recebeu muito menos, ou seja, uma fitinha com uma  medalha, E nasceu nos seus dentes toda uma espuma; a gratidão  escorria-lhe em forma de baba elástica. Eis o que me perguntava: — como reagiria Oscar Niemeyer?

(Bato estas notas e sou perseguido por uma obsessão pueril e  terrível. Não me sai da cabeça a seguinte cena: — o Otto indo buscar,  a nado, o prêmio Nobel.)

E, de repente, o ator Sérgio Cardoso diz o  nome de Oscar Niemeyer. A platéia quase veio abaixo. O nome de  Pelé foi muito menos aplaudido. E, no entanto, para o gosto popular,  as botinadas estão muito mais próximas do sublime do que a  arquitetura.

Na minha casa, eu adulava a minha úlcera com pires de leite.  E não entendia mais nada. Por que esse amor súbito e ululante por  um arquiteto? Desde quando a arquitetura teve, no Brasil, um Frank  Sinatra? Estava vendo a hora em que os presentes, de pé, iam berrar  como nos comícios do Brigadeiro: — “Já ganhou! Já ganhou!”. Mas por que essa ovação de Cauby Peixoto? Era a pergunta que  continuava sem resposta.

E, súbito, percebo toda a verdade. Não era o arquiteto, era o  gênio. O povo não gosta das invenções plásticas de Oscar Niemeyer.  Abomina. O que o povo adora é aquele prédio do elixir de Nogueira,  ali na Glória, perto do Relógio. O homem comum entende que a casa  feita por Oscar Niemeyer não serve para dormir, amar, morrer ou  simplesmente estar. Não importa. É gênio.

Pouco depois chegou a vez de Glauber. Outra ovação  formidável. O grande público não gosta dos seus filmes, não entende seus filmes. Mas é outro gênio. Chamam-no de maluco. A figura que  tenha essa lenda de insânia fascina o povo. Lembro-me de um  conhecido que foi ver Terra em transe e veio-me dizer, deslumbrado:  — “Não entendi nada”. Estava gratíssimo ao filme e ao seu autor. O
povo desconfia do que entende, desconfia do que gosta. E Glauber  Rocha, ao surgir na sala, era uma figura. A cabeleira mais selvagem do que as cerdas bravas do javali.

Subiu a escadinha do palco com um passo ágil, elástico, quase alado. Mas nem Glauber, nem Oscar Niemeyer fizeram a concessão  de um sorriso. A cara do Niemeyer estava fechada, inescrutável,  como certas máscaras cesarianas. (Ah, como o brasileiro precisa ter  um gênio à mão. Sim, para apalpá-lo, farejá-lo. A simples existência  de um gênio patrício já nos permite um mínimo de auto-estima.) E,  por fim, o Luís Carlos Barreto, o formidável animador do Cinema  Novo, foi receber o seu. Subindo, disse, à queima-roupa, ao  governador: — “O dinheiro já saiu”. E aí, nessa voracidade jucunda,  estava todo o Brasil.

[23/1/1968]

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