Aos linguistas e pedagogos deste mundo, lanço minha primeira dúvida do ano: será que os miúdos ficam orgulhosos ao aprender uma nova palavra ou isso é um processo intuitivo e natural e eles nem percebem a própria evolução?

Eu não sou nenhuma criança (talvez seja, com tanto assunto para refletir em 2022 e escolher exatamente este), mas me sinto o próprio D. João VI toda vez que aprendo novas palavras e expressões em Portugal.

Sem modéstia, posso dizer que cada vez menos me deparo com termos do português europeu que desconheço. Ainda não visitei o país de lés a lés (de ponta a ponta), mas várias locuções já me soam familiares. No entanto, como as obras de Santa Engrácia (algo que não chegará a acontecer), tenho consciência de que jamais serei fluente na minha língua materna.

Já no falar, aí alcançamos um outro patamar. Sotaque é uma das coisas mais complicadas de se adquirir. Falar “clstrl” em vez de colesterol é ainda muito custoso para mim. Mas a grande vantagem é que, embora o inverso não seja necessariamente verdade, os portugueses nos entendem bem. Ou será que estou enganado e os exames de colesterol pedidos por mim, na realidade, vieram com os índices relativos à minha glicemia?

Mas a vingança dos brasileiros acontece quando um português do continente é desafiado a entender um açoriano. Nesse momento, até eles sofrem.

Como os Açores são um arquipélago bem isolado que passou por ondas tanto de colonização como de imigração, a língua se moldou a estas influências. Ao ouvir o português local (estou generalizando pois, na verdade, cada uma das nove ilhas tem seu sotaque próprio), percebemos uma sonoridade um tanto francesa, com vogais muito fechadas e nasais e o “biquinho” característico, além de várias palavras derivadas do inglês.

Para exemplificar, os comuns ditongos “ão” viram “ã” e “iu” vira “i”. Assim, naquelas bandas, ouve-se que “o cã nã vi o ladrã”. Até porque a violência lá é baixa também.

Nas expressões, são inúmeras aquelas desconhecidas do continente. Crescer comida significa comer o que sobrou, coriscos mal amanhados são crianças traquinas, e fazer um leilão é armar uma confusão. Já estar em couro é estar nu. Ou melhor, você vai ouvir algo como “estã em quêro é estã ni”.

Algumas palavras alienígenas são besuga (mulher), atoleimado (tolo), requinho/requinha (bonito/bonita) e calafão (imigrante da América). Outras são corruptelas diretas do seu equivalente em inglês. Por exemplo, alvarós (overalls) significa jardineiras , dolá (dollars) quer dizer dinheiro  e candilhes (candies) são rebuçados (tradução da tradução: rebuçados são balas e caramelos).

E, para o título desta crônica fazer sentido, nas ilhas, as casas são limpas por vacas miquelinas (vacuum cleaners). Nos Açores, os aspiradores de pó fazem um barulho bem diferente do que estamos acostumados.

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Marcelo Tacuchian é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

A participação em diversas oficinas de escrita (notadamente, Oficina Literária do Marcelo Spalding e de Crônicas do Rubem Penz) o incentivou a divulgar seus textos. Tem um conto publicado em uma coletânea (Vários autores. Diálogo. Editora Metamorfose 2020).