Ganhei “Vento vadio” de presente da turma Aperitivo Santa Sede. Aprendi na infância que somos absolvidos do pecado de pedir um presente quando ele – o presente, não o pecado – vale muito. Reler Antônio Maria vale mais do que muito. Tanto quanto ser grato ao grupo que, mais de ano depois de sermos confinados atrás de telas, revolucionou as aulas remotas. Criativos, carinhosos, humorados… E, muito importante, pessoas diferentes em tudo menos no desejo de ver nosso trabalho acrescentar coisas boas em nossas vidas. Quando ansiamos pela chegada da segunda-feira, significa que algo vai muito bem.

Reler (ou, antes, ler) Maria é conversar de pertinho com as frases. Esse pernambucano genial escrevia crônicas, claro. E suas crônicas por certo tinham parágrafos. Porém, raros são os escritores dos quais podemos colher pepitas a cada peneirada. Com frequência precisamos de raciocínios complexos transcorridos em parágrafos vários para ofertar ao leitor um átimo de brilho precioso. Antônio Maria nos humilha quando nos faz parar de ler e pensar dez, vinte, trinta vezes numa só lauda. É uma surra. Porém, apanhamos para aprender.

Fico pensando se ele tinha muito tempo para lapidar o texto. Depois de conhecer um pouco mais de sua vida, passei a acreditar que a verve fluía natural e em jorros – só assim daria conta de uma produção densa e fértil. Se partirmos do pressuposto de que, além de escrever, Maria editava, uns dois redatores fariam crônicas semanais ao fuçar em seu descarte. Ou, na sua companhia à mesa do botequim, veria facilitada a tarefa de escolher temas ou pontos de vista. A generosidade de um livre-pensador costuma ser pauta garantida para quem sabe escutar. Quem tem um amigo com inteligência intuitiva para dividir uma cerveja dificilmente conhece o tédio.

Por tudo isso e muito mais, reler Maria é estimulante – obrigado pessoal! Principalmente para quem já empilha anos no ofício de cronista, assim como eu. Num só tempo ganhamos a humildade de reconhecer o quanto precisamos nos esforçar e o ânimo de vislumbrar muito caminho pela frente. A pior derrota é considerar que há pouco em jogo. Frase por frase, cumprir a missão. Satisfazer a si próprio para, com sorte, olvidar que somos julgados por leitores. Por frases-maria rogo à Nossa Senhora.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.