Acontece comigo com frequência: noites mal dormidas. Vou num sono só até umas três ou quatro horas da madrugada e, depois, começa um suplício. Coincide com o momento em que estou com algumas boas horas já dormidas, mas distante daquilo que qualquer médico consideraria ideal – tanto que a energia não é a mesma pela manhã. Nestas situações, a única salvação é lavar o rosto com água fresca.

Dois dias atrás, em meio ao singelo ato de resgate do ânimo, fui assaltado por um pensamento: quem ensinou a gente a lavar o rosto para despertar? Nascemos sabendo, ou imitamos os pais? Se imitamos os pais, eles também imitaram os seus e assim por diante? Houve o primeiro homem que acordou de madrugada preocupado com um leão, perdeu o sono e lavou o rosto num laguinho em plena savana africana? Ou antes: todos os primatas livram-se de suas remelas da mesma forma?

Talvez lavar o rosto seja um gesto tão natural quanto caminhar, lançar objetos, coçar a cabeça, dançar, sorrir, fazer sexo e apontar a culpa para alguém. Ou seja, mesmo que ninguém ensine, vamos acabar fazendo ainda assim, mais cedo ou mais tarde, por bem ou por mal. Lavamos o rosto porque é bom, porque funciona, porque precisamos disso. Se tivermos um espelho, olharemos a água fazer seu efeito restaurador antes de a toalha terminar a festa.

Contudo, nem todos têm uma pia e água tratada, corrente e fresca ao dispor para ser o remédio infalível contra a noite mal dormida. Pior: são os mesmos para os quais o sono é roubado por pensamentos sombrios ligados a carências tantas, inclusive de saneamento básico. Ao pensar nisso, subiu a revolta com os poderosos e inescrupulosos homens que governam a nação. E desejei que faltasse água em suas suítes palacianas pela manhã, para verem o que é ruim. Bobagem, né? Eles nunca perdem o sono…

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Você não é de Porto Alegre e morre de inveja dos cronistas da Oficina Santa Sede? Não perca o sono com isso: este ano, nas segundas-feiras, teremos uma turma de botequim virtual. Quer falar sobre assunto? Escreva para contato@oficinasantasede.com.br e dou o serviço. Teremos aulas já em janeiro!

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.