Na infância e na juventude estive na praia durante o Carnaval. Lá, cumpri todas as possibilidades: dos bailinhos no domingo à tarde até a avenida de Capão da Canoa no sábado à noite, de pirata a náufrago, do tamborim ao repinique. Depois, um pequeno – grande – trauma fez com que eu e o samba nos tornássemos amigos distantes. E, como as amizades costumam ser, basta estarmos juntos para o amor se fazer presente.

Por exemplo, quando saí na escola de samba Vila Isabel de Viamão na avenida de Porto Alegre. Fiz parte da ala “Amigos do Luis Fernando”, que compunha o enredo em homenagem ao pai do Analista de Bagé, da Dora Avante, da Velhinha de Taubaté e d’As Cobras, entre outras criações geniais. Talvez tenha sido num dos últimos carnavais no centro da cidade, antes de inventarem um sambódromo que, na prática, foi apenas confete ao vento. Mas não vamos por esse lado… Também tive o privilégio de assistir uma noite de desfiles no Rio de Janeiro de dentro de um camarote. Nossa, algo digno do epíteto de o maior espetáculo da terra!

Porém, demorou bastante para acontecer um encontro mais singelo, mais íntimo. Eu queria me reconciliar, só faltava saber quando e como. Foi então que tomei coragem e passei a conhecer o carnaval de rua da Cidade Baixa. Uma festa bem no espírito descontraído dos festejos de Momo, na qual cada um faz seu próprio enredo. Na primeira vez, estava quase como um observador – da experiência sairia um texto para uma oficina de crônicas de viagem. Depois, já com a Vanessa, foi para cair na folia sem compromissos outros a não ser nos divertirmos.

E, quer saber? Aconteceu o que sempre acontece nas amizades: eu e o samba trocamos sorrisos como se tivesse sido ontem a última vez. O preço da distância atrapalhou: meu par sabe todas as letras dos anos 1980 em diante, enquanto eu congelei no mesmo período para trás. Os sambas novos daremos um jeito de aprendermos juntos!

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.