Posso imaginar a cena: com a sofreguidão de sempre, o hipocondríaco desdobra a bula depois de comprar um remédio novo. Passa voando pela posologia, cruza correndo pela eficácia esperada para as doenças e chega ao ponto principal – os efeitos adversos da medicação. Se for raiz, já sentirá alguns sintomas só pelo fato de ter aberto a caixa, antes mesmo de engolir a primeira drágea. A sequência será parecida com um desconfiado como protagonista: deseja tanto estar prevenido que, dependendo dos efeitos colaterais, ligará para o médico para perguntar se não há alternativas. Enquanto os excessivamente desencanados jogam a bula fora (pois atrapalha muito para tirar as cartelas), acredito que a maioria só vai consultá-la em caso de mal-estar severo: “deixa ver se isso é por causa do remédio…”.

O que as pessoas desconhecem é que tudo na vida, se bula tivesse, teria um espaço reservado para os efeitos colaterais. Consequências previstas e inesperadas, graves ou brandas – varia muito de organismo em organismo. Quer exemplos? Vamos de quatro:

Beijo na boca

Tanto para quem beija, como para quem é beijado, podem surgir sintomas de arrependimento leve, moderado ou severo e, em casos agudos, costuma evoluir para revoltas. Saudades também pode acompanhar a pessoa por muitos anos – quando não para a vida inteira, diretamente proporcionais ao efeito sentido durante o ósculo. Triste é evoluir para indiferença. Grave, grave mesmo, é surgir repulsa.

Tapa na cara

Para quem recebe: o pior efeito colateral é não existirem reações adversas. Para quem dá: a pior reação adversa é não existirem efeitos colaterais.

Ataque de riso

Dependendo da dose, surgirão terríveis dores abdominais e cãibras nas bochechas. Em caso de missas, velórios ou eventos oficiais, quando não for possível deixar o recinto, sobrevirá um constrangimento momentâneo o qual, com o passar do tempo, tende a evoluir para uma memória divertida.

Lapsos

As falhas de memória não costumam deixar muitos efeitos colaterais, salvo em situações muito específicas e raras. Pequenas vergonhas podem surgir, nada que um pedido de desculpas com sinceridade não resolva. E, ops… Quais eram mesmo os outros sintomas?

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.