O tenor desastrado e outras calamidades [Raul Drewnick]

Posted on 18/04/2021

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De um dos três tenores conta-se que, cantando na cerimônia de sepultamento de um amigo, o fez com tanto vigor que suas amígdalas foram aterrissar no colo do defunto, que, assim inusitadamente acordado, as recolheu com enojada precisão e lançou a pergunta óbvia: mas nem morto se consegue ter sossego?

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O poeta anda ranzinza. Cisma com tudo e com todos. Se um verso lhe sai mal, a culpa é do gato; se um verso não lhe sai bem, a culpa é do cachorro. Hoje cedo, queixou-se do frio: cadê esse sol, que não chega nunca? Quando saiu para a caminhada matinal, logo no quarto ou quinto passo ergueu  o punho raivosamente: para de me seguir, velho. (O velho era o sol, que tinha resolvido aparecer.)

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Está desolado. Descobriu que para tornar-se um poeta social precisa tornar-se primeiro um poeta.

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Anacolutos, anástrofes e zeugmas parecem muito menos figuras gramaticais do que enfermidades fatais.

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Começou a desgostar de Prisccylla Mariuszka quando notou que ela recebia melhor seus bombons e flores do que seus sonetos.

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É poeta monotemático. Quando não está exaltando o amor, está  falando mal dele.

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Era um poeta luxento. Tinha sempre pelo menos duas musas na folha de pagamento.

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Cada qual com sua barriga. Na do poeta nobre, um rei. Na do poeta pobre, uma lombriga.

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Pior solidão não há, nem maior castigo, do que me descuidar e ficar a sós comigo.

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Se já foram embora tantos que estavam vivos, quem disse que morrer é um verbo intransitivo?

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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