Estar na minha pele [Bruna Silveira]

Posted on 10/06/2020

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Diante de todas as tragédias recentes, eu só conseguia pensar em um tema sobre o qual escrever para a minha crônica quinzenal da Revista Rubem. Pesquisei diversos artigos, revi algumas partes da minha tese, vi vídeos e li notícias. Eu precisava falar sobre racismo. Nenhum outro sujeito era possível. Comecei a escrever minha crônica, e fui percebendo que tinha algo errado. Continuei. Busquei mais dados, li mais um pouco, falei com pessoas e, três dias antes da data de entrega, falei para o Henrique, idealizador da Rubem, que minha crônica não ia ficar boa, eu precisava ceder meu espaço. Henrique topou minha ideia na hora (nada que me impressione vindo dele, uma pessoa muito esclarecida e correta), e, desta forma, foi decidido que eu vou abrir o espaço que eu tenho aqui na Rubem para as minhas amigas negras durante um tempinho. Elas têm muito pra falar, e nós para ouvir/ler. Vou estar de pertinho acompanhando-as, e te convido a vir comigo. Acolham com amor e respeito essas mulheres fortes e guerreiras que vão dividir um pouco da história delas com a gente.

Drica Muscat

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Tenho visto bastante gente compartilhando e falando sobre questões de gente preta, falando sobre o racismo. E vi uma menina da minha cor que disse que o cheiro que marcou sua memória foi o cheiro de guanidina. Sempre tive muitas questões com o meu cabelo e até que lembro bem da guanidina. Mas o cheiro que mais me marcou foi o do hidratante amêndoas paixão, aquele de pote branco e tampa azul. Esse era o hidratante que eu e meu irmão mais novo usávamos antes de sair de casa.

Antes de sair de casa, tínhamos uma lista de instruções: estar limpo, não andar com a pele ressecada (parecendo suja de poeira), andar com roupas bem passadas, o cabelo na régua, não sair de chinelo, não sair de óculos escuros (para não esconder os olhos) e nem boné (se a aba estivesse para trás era pior). Como a mãe trabalhava do lado de onde morávamos, era certo que ela ia fazer um check-up. Qualquer deslize já era o suficiente para ouvir: “Pode voltar em casa e se arrumar direito, igual gente. Não quero filho meu andando feito um ‘sujismundo’ por aí! Vão achar que vocês não têm mãe!”. O andar do meu irmão também foi corrigido. Não deveria andar como um malandro, como um desleixado. Mais tarde eu entendi. Entendi o medo que as mães de filho preto têm. Agora eu tenho medo de ter filhos.

Minha mãe tem cabelo crespo e o nariz não é fino. Mas a pele dela é mais clara que a minha. A mãe da minha mãe era branca e tinha cabelo crespo. O meu avô, pai da minha mãe, eu nem conheci. O meu pai é negro, assim como seus pais eram. Mãe diz que nós saímos de uma mistura de escravo (de origem africana, claro. Mas o continente África é tão grande, né?), índio (minha mãe diz que era daí que vem minha testa grande) e português (acho que é daí que vem o Silveira do meu sobrenome). Não saberia falar muito sobre meus bisavôs. Estava pensando sobre isso hoje… Sai na hora do almoço acompanhada de um francês branco e de um camaronês que tem a pele bem mais escura que a minha. O francês no meio do caminho perguntou ao camaronês sobre o que ele estava achando e como eles estava se sentindo em relação ao racismo estar em pauta agora. O camaronês falou que é sempre bom aproveitar quando essas oportunidades de fala são abertas e que estava achando bom. Eu me encontrei num limbo. Aqui eu não sou preta, mas também não sou branca. 

Outro dia li que o ator Lázaro Ramos foi confundido com outro ator negro. Lembrei também que meu pai já foi confundido com o padre da cidade. Era engraçado, meu pai benzia as pessoas que frequentavam a igreja e o padre era cobrado ou recebia recados no lugar do pai. Meu irmão mais novo já foi parar na delegacia e o pai teve que ir buscá-lo e explicar que foi um mal-entendido. A polícia confundiu meu irmão com algum menino que sumiu ou fugiu. Mas essa história de “confundir” incomoda bastante. Veja bem, um chinês não gosta de ser confundido com um coreano ou japonês. E, no Brasil, um preto ser confundido com outro preto, muita das vezes acaba com o preto sendo violentado.

Quando todo mundo começou a falar e ouvir sobre racismo, fui conversar com o meu irmão mais novo. E acabamos lembrando o quão chato é entrar numa loja e ter medo, deixar as mãos, as bolsas e os bolsos à vista. Ou das vezes que ele era sorteado a ser revistado no procedimento padrão.

Estudamos em escola particular a vida toda. Tenho ótimas memórias de lá. Um amigo uma vez disse que essa escola prepara as pessoas para a vida. E eu concordo com tudo o que ele disse. Cresci muito, aprendi muito, fiz amigos. Mas lembro de ficar triste, chorar, me queixar com a minha mãe. Dessa parte, eu só falava com a minha mãe. Acho que na época eu não queria entender, mas no fundo já sabia. Eu não era igual aos meus colegas, eles pertenciam ao padrão mostrado na TV e eu não. E eu sempre tive essa necessidade de pertencer a alguma coisa. E eu também tinha vergonha de me mostrar. Um exemplo disso é que até os meus 18 anos eu não deixava os cabelos soltos. Eu era aquela pessoa legal com todo mundo, que quase nunca dizia não. No fundo isso tudo era para poder fazer parte. Minha mãe na tentativa de amenizar, dizia que ela também era assim quando mais nova, que também era tímida e que pessoas com cabelos, cor e lábios iguais aos nossos sempre passavam por isso. Dizia que eu estava lá para aprender e conseguir ter uma formação superior. Ter amigos era a cereja do bolo. Meus pais tinham muita dificuldade de pagar a escola, ficavam devendo meses e meses (mas mesmo assim terminei o ensino médio lá). Aquela época era bem puxada. E a nossa postura era de não questionar muito sobre as coisas, não nos sentíamos no direto. Eu tinha que estudar e tratar de não reprovar.

Eu fui crescendo e não queria ir mais às festas e aos eventos que meus colegas de escola iam. Até que cheguei na faculdade de engenharia. Chegando lá, para a minha surpresa, o número de mulheres na sala era representável. Somávamos quase a metade num total de 50. Mas o número de pessoas pretas era de 2. Eu e um menino com um sobrenome que eu nunca tinha ouvido falar. O menino provavelmente teve a mesma sorte que eu. A sorte de sair da grande porcentagem que tem que trabalhar pra comer e não pode estudar.

Esses dias li também uma frase que me fez lembrar do dia que eu tive vergonha de ter a minha cor. A frase diz o seguinte:

“O dia em que eu me reconheci como uma pessoa preta, foi o dia em que eu não quis ser uma pessoa preta”.

Lembrei daquele dia voltando da faculdade para casa. Eram 22h e estava muito escuro no ponto de ônibus. Tinha acabado de rolar uma troca de tiros entre polícia e ladrões. Estávamos todos desorganizados na calçada em frente ao ponto de ônibus. Cada um esperando seu ônibus para voltar para casa e descansar. O 996 estava estacionando e eu me posicionei atrás de algumas pessoas para conseguir entrar. Já não tinha muitos lugares vagos para sentar, então me conformei e esperei minha vez de entrar. De repente escuto alguém gritar atrás de mim e sinto alguma coisa me bater por duas vezes nas costas. Uma senhora branca estava gritando, dizendo que eu havia furado a fila. E ela continuou falando e gritando dentro do ônibus. Ela dizia que eu era sem educação e que era por isso que meu cabelo era assim (é castigo?). A única resposta que veio na minha cabeça foi: Senhora, não vi fila formada e não tinha a intenção de pegar o seu lugar. Ela se sentou na frente, antes da roleta, numa dos lugares preferenciais. Depois, lembro das pessoas do ônibus me olharem. Uns faziam sinal para deixar para lá, era só mais alguém sem noção. Outros me olhavam com os olhos desconfiados e de julgamento. Eu fui para o fundo do ônibus, onde ainda tinham 1 ou 2 lugares vagos e coloquei meu fone de ouvido. Não lembro de prestar atenção na música, não lembro de ter tido coragem de olhar para as pessoas. Lembro de chegar em casa e chorar muito. Eu senti um misto de vergonha, impotência e raiva. As pessoas do ônibus calaram. Eu calei. Não consegui me defender. Eu já devia ter meus 24 anos. 

Hoje, com 30, a minha resposta a tudo isso está no meu cabelo completamente natural e bem pro alto mesmo, no meu sorriso e no meu orgulho de estar na minha pele.

 

Drica, minha amiga, obrigada por esse espaço de fala. Estou feliz de poder contar um pouco de mim aqui nesse momento tão importante. Beijos, Bruna.

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Oi gente, eu sou a Bruna da Silveira e Silva (é isso mesmo que você leu! mais brasileiro que isso eu desconheço). Eu tenho 30 anos agora e me formei já fazem uns aninhos em engenharia civil. Tô morando na frança com meu companheiro há quase 4 anos. Fiz um master logo quando cheguei aqui. Mas eu gosto mesmo é de música. Se tiver roda de musica, pode me chamar que eu vou. Tô melhorando no violão, tocando num grupo de maracatu que encontrei aqui e tô tentando aprender cavaquinho também. Ah, não posso esquecer de dizer que eu amo carnaval!

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